30 de set de 2007

Morte no Funeral

A morte do patriarca reúne toda a família na casa onde vivem Daniel e sua esposa Jane, além de sua mãe. Robert, irmão de Daniel e um escritor famoso, vem de Nova York para o enterro. Diversos familiares e amigos também comparecem. Mas a aparição de um anão que tem ligações até então desconhecidas com o falecido e um frasco de Valium que contém drogas, inseridas por vários dos presentes, geram confusões no local.

A abertura é bacana: através de animação é percorrido um mapa, como se fosse o caminho do caixão até o local do funeral, enquanto os créditos são apresentados. O filme começa bem, com uma ótima piada relacionada a esta animação e a 1ª vítima do frasco de Valium, Simon. Alan Tudyk, seu intérprete, tem cara de louco, o que ajuda bastante nas cenas em que seu personagem delira devido às drogas inseridas. Só que o lado bom do filme termina aqui.

O grande problema de Morte no Funeral é ter uma única boa piada e girar todo o filme em torno dela. A troca de Valium por drogas funciona de início, principalmente pela boa atuação de Tudyk, mas à medida que a situação acontece com outros personagens a idéia perde força e torna-se repetitiva. As demais piadas soam bobas, rasteiras. E ainda há uma, inacreditável, envolvendo tio Alfie, que nem American Pie e derivados tiveram coragem de fazer. Uma piada apelativa, fugindo inclusive do conceito do próprio filme, que em nenhum outro momento as utiliza. Apenas mediano.

Morte no Funeral (Death at a Funeral), de Franl Oz, EUA / UK / Alemanha, 2007, 90′

Mostra Panorama

Nota: 5,0

Snow White: The Sequel

Branca de Neve e o Príncipe Encantado se casaram e foram morar na casa dos sete anões, que agora vivem em sua mina de diamantes. Só que a Fada-Madrinha deseja ter o Príncipe, então elabora um plano para que ele tenha uma noite de amor com ela.

Uma grande brincadeira com os contos de fadas da Disney, especialmente pelo lado ingênuo e puro das histórias. O início, mostrando a noite de núpcias entre Branca de Neve e o Príncipe, já dá o tom deste contraste. Todos os personagens têm seu lado sexual bastante ressaltado, o que gera algumas boas piadas pelo inusitado em vê-los naquela situação. Entretanto, à medida que o filme se desenvolve e estas surpresas terminam, a impressão que fica é que se assiste a uma versão animada de uma comédia adolescente normal, apenas um pouco mais picante.

“Snow White: The Sequel” é um filme de boas idéias, mas sua história não consegue sustentá-las em um bom nível. Chega a provocar gargalhadas de início, mas aos poucos cai de qualidade até um final bastante convencional e até mesmo frustrante. Faltou ser mais anárquico, mais escrachado com a própria história, como é com muitos dos personagens em sua apresentação.

Snow White: The Sequel (idem), de Picha, Bélgica, 2006, 82′ (LEP)

Mostra Midnight Movies

Nota: 6,0

Conversas com meu Jardineiro

Um pintor conhecido decide deixar Paris e morar na antiga casa de seus pais, já falecidos, numa cidade do interior da França. Ao chegar ele coloca um anúncio procurando um jardineiro, para limpar o jardim e organizar uma horta. Um homem se apresenta para o serviço, sendo que ele e o pintor se conheciam desde a infância e não se viam há décadas. É o início de uma grande amizade entre eles.

A velha fórmula do homem da cidade grande que se muda para o interior e lá conhece alguém, com menos instrução, que lhe passa algumas lições de vida. Existem inúmeros filmes que abordam este tema e Conversas com meu Jardineiro não se destaca em relação a qualquer um deles. Um filme convencional ao extremo e que cansa o espectador, justamente por não apresentar absolutamente nada de novo e nem ao menos emocionar. No máximo surge uma simpatia pelos personagens, nada além disto.

Conversas com meu Jardineiro (Dialogue Avec Mon Jardinier), de Jean Becker, França, 2007, 109′ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 4,5

Hitler e os Judeus

Muitas vezes, é impossível não ouvir a conversa alheia. Principalmente se a pessoa está exatamente atrás de você e fala demasiadamente alto. Foi o que aconteceu ontem, no Espaço 1, enquanto eu esperava para ver O Búfalo da Noite (muito bom, por sinal). Um senhor falava compulsivamente com um interlocutor inexistente ou envergonhado demais para responder qualquer coisa. Ele iniciou se queixando do ar-condicionado do cinema que, segundo ele, o afastaria do resto do Festival por deixar seu nariz “pingando” (e tome uma longa dissertação sobre os malefícios do frio) e seguiu com um ataque aos filmes do Festival. O crítico de plantão afirmava não ter visto nenhum filme que merecesse nota acima de 3,0 (resta saber quantos filmes ele viu). Para exemplificar, ele começou a falar sobre a farsa que era “A Verídica Verdade Verdadeira sobre Adolf Hitler”. Dizia que o título era enganoso, porque o filme não continha verdade nenhuma (quem não sabia disso?) e mostrava fatos deturpados. Ou seja, o cara não entendeu que aquilo era uma sátira. Nessa hora, as luzes se apagaram para o início da sessão (ufa!) e ele teve que se calar. Não sem antes soltar a última pérola: “isso é filme feito por judeu!”

Déficit

Cristóbal, um jovem mexicano, tem uma vida aparentemente perfeita: é bonito, rico e está prestes a iniciar um curso em Harvard. Num dia ensolarado, reúne os amigos na mansão dos pais para uma festa à beira da piscina. Ao longo do dia, a imagem da perfeição vai se desconstruindo: seu pai é um político corrupto sob investigação, sua irmã mais nova é uma viciada e ele próprio não é o vencedor que quer aparentar. Exibido na Semana da Crítica em Cannes 2007.

O filme tem uma proposta meio Big Brother: reúne vários personagens num mesmo ambiente e vai, aos poucos, revelando quem é quem. E o que percebemos é que estão todos perdidos, confusos e insatisfeitos com suas vidas. Isso fica mais evidente no protagonista, mas também, em menor escala, em todos os demais personagens. A exceção talvez seja a garota argentina, que é a única que parece mais equilibrada.

O problema de Déficit – estréia de Gael García Bernal atrás das câmeras – é que conforme a trama vai ficando mais densa, cria conflitos e gera expectativas que não se realizam. O espectador pressente que aquela fogueira de vaidades se encaminha para culminar em alguma grande explosão, mas esse clímax não se concretiza. O resultado é frustrante.

Déficit (idem), de Gael García Bernal, México, 2007. 75’ (LEP)

Première Latina

Nota: 5,0

Os Mal-Criados

Stevie é uma garota de 14 anos que faz de sua vida o que bem entende, já que os pais levam uma vida pautada por sexo, drogas e tráfico e não costumam se preocupar com sua criação. A carência afetiva faz com que ela tenha atitudes desesperadas, como se oferecer a um amigo dos pais só porque este lhe dá um mínimo de atenção ou inventar para as meninas da vizinhança uma biografia bem diferente da realidade.

O grande problema de Os Mal-Criados é apresentar um tema batido sob uma perspectiva idem. Quantos filmes já foram feitos mostrando uma adolescente sensível tentando sobreviver a pais desajustados? O futuro de uma menina com Stevie? Isso é pergunta sem resposta. E o longa é mais do mesmo, não difere em nada de outros que se propuseram a enfocar o tema juventude perdida. Ainda assim, é um filme relativamente bem conduzido. Birol Ünel, já visto no bom Contra a Parede, tem presença forte na tela como o pai.

Os Mal-Criados (Die Unerzogenen), de Pia Marais, Alemanha, 2007. 95’ (LEP)

Mostra Expectativa

Nota: 6,0

Sombras de Goya

O filme retrata um período de cerca de quinze anos do início do século XIX, desde o radicalismo da Inquisição espanhola até a conquista do país pelas tropas de Napoleão e a posterior invasão britânica. Em meio às turbulências políticas e religiosas, o genial pintor Francisco de Goya serve de fio condutor da história. Primeiro quando uma de suas musas, a jovem Inés, é presa e torturada sob uma falsa acusação de heresia. O rígido Frei Lorenzo, também retratado pelo pintor, passa de algoz a perseguido. E Goya, observador atento de seu tempo, retrata em suas gravuras e quadros os horrores da guerra, a brutalidade da Inquisição e, principalmente, os fantasmas que o atormentam.

Um belo filme, ainda que salpicado de deficiências. Dois defeitos mais graves se sobressaem: em primeiro lugar, o título induz a um erro. A trama não é centrada na biografia e trajetória de Goya, ele é apenas uma espécie de narrador (ou testemunha) dos fatos. Em segundo, o roteiro abrange um período cheio de reviravoltas políticas que acabam sendo expostas no longa com uma rapidez que desnorteia o espectador e quebra bastante a narrativa. É como se os personagens fossem deixados de lado por um tempo para situar os inúmeros acontecimentos sociais e políticos.

Mas as falhas citadas acima não desmerecem o filme, dirigido com competência por Milos Forman e belamente interpretado pelo elenco – com destaque para Javier Bardem. Sombras de Goya também merece aplausos por familiarizar a platéia com algumas das grandes obras da época. Não apenas as de Goya, mas também as de outros pintores importantes como O Jardim das Delícias de Bosch e As Meninas de Velasquéz. E uma das melhores seqüências do filme mostra passo-a-passo o processo de confecção de uma gravura. Fascinante.

Sombras de Goya (Goya’s Ghost), de Milos Forman, EUA/Esp, 2006. 117’ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 7,5

Ficha no Adoro Cinema

Amor Fantasma

Uma mulher é vista em algumas situações recorrentes: no seu trabalho num cassino, na cama fazendo sexo com um homem, discutindo ao telefone com a mãe, tentando se comunicar com a irmã em surto psicótico, olhando notícias sobre a guerra do Iraque na TV, etc.

A trama? Não há, meus caros. O filme inteiro se resume a várias repetições, quase idênticas, das cenas citadas acima. Como se não bastasse, também são mostradas algumas outras cenas bizarras, como a protagonista passando por uma cobra enorme no meio de um longo corredor, um polvo (sim, um polvo!) nadando, uma mulher levitando e explodindo no ar… E quando você acha que alguma coisa vai começar a fazer sentido, as mesmas cenas vistas anteriormente começam a passar de novo.

Uma verdadeira tortura. Foi a primeira grande debandada de uma sala de exibição que presenciei este ano. Com mais ou menos quinze minutos de filme, o primeiro espectador se revoltou e deu o pontapé inicial. Depois dele, as outras pessoas perderam a timidez e começou a revoada. Confesso que fiquei tentada a abandonar o barco também, mas resisti. Nem sempre trabalho é prazer… fazer o quê?

O público restante se alternava entre suspiros, bocejos e gargalhadas (não que algo ali fosse engraçado). Na terceira vez que a cobra serpenteando pelo corredor apareceu, uma espectadora não se conteve e disparou: “Ah, morde logo essa mulher pra ver se isso acaba mais rápido”. Ninguém a censurou.

Amor Fantasma (Phantom Love), de Nina Menkes, EUA, 2007. 87’ (LEP)

Mostra Midnight Movies

Nota: 0

29 de set de 2007

Fados

Uma homenagem ao fado, gênero musical típico de Portugal, através da apresentação de diversos cantores.

Carlos Saura é um diretor do tipo ame ou odeie, especialmente quando faz filmes que tenham por função ser um espetáculo visual, ao invés de contar uma história. Assim foi com Ibéria, Salomé e, parcialmente, Tango. “Fados” segue a mesma linha, mas com uma diferença importante: o lado visual foi deixado bastante de lado, para que os cantores entrassem em cena. Esta decisão foi uma faca de dois gumes. Por um lado as danças e a dramaturgia, o ponto forte dos filmes de Saura neste estilo, praticamente desapareceram. Elas até surgem em alguns momentos, acompanhando as canções, mas são poucos. Por outro lado ganha a trilha sonora, já que o fado possui belas canções. Porém isto faz também com que o filme tenha uma cara de show filmado, pelo preparo técnico existente para cada canção.

Como curiosidade, há a presença de três brasileiros entre os cantores: Toni Garrido, exagerado ao demonstrar sofrimento; Caetano Veloso, afinando bastante a voz e fazendo sotaque português; e Chico Buarque, numa bela canção cuja letra é de sua autoria e também de Ruy Guerra. Um filme interessante, mas não recomendado aos que não gostam deste estilo do diretor ou que não têm ao menos alguma simpatia pelo fado.

Fados (idem), de Carlos Saura, Espanha/Portugal, 2007, 93′

Mostra Panorama

Nota: 5,5

Cristóvão Colombo - O Enigma

Na década de 40 Manuel Luciano da Silva e seu irmão rumam aos Estados Unidos, atendendo ao chamado do pai. Lá Manuel se forma como médico e desenvolve a paixão pelas grandes navegações portuguesas, especialmente pela origem de Cristóvão Colombo. Manuel está convencido de que Colombo era português e, durante mais de 40 anos, tenta encontrar algo que prove isto.

A proposta é interessante, por relembrar o tema das grandes navegações, só que tudo que é mostrado parece uma aula de história, daquelas bem chatas em que o professor fica apenas repetindo nomes e datas para que os alunos decorem. Além disto trata-se de um filme bastante artificial, falso, onde os atores lêem suas falas ao invés de simplesmente interpretarem. Isto fica ainda mais nítido quando a trama dá o salto para os dias atuais, estrelada pelo próprio Manoel de Oliveira e sua esposa, Maria Isabel. Há cenas patéticas, constrangedoras mesmo, pela falta de interação com a arte de atuar.

Quanto à suposição de que Colombo era português, ela é baseada numa possível descendência que é apenas insinuada através de diálogos, sem qualquer apresentação de indícios de que seja verídica. O filme demonstra ainda um certo orgulho português, emanado através da aparição periódica de uma mulher vestida com uma roupa com as cores da bandeira de Portugal, devido ao pioneirismo do país em desbravar os oceanos. Apesar da homenagem, é um filme bastante fraco.

Cristóvão Colombo - O Enigma (idem), de Manoel de Oliveira, Portugal, 2007, 70′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 2,5

Ficha no Adoro Cinema

As Testemunhas

Paris, 1984. Adrien é um médico homossexual de meia idade, que se interessa por Manu, bem mais jovem do que ele. Eles logo se tornam amigos, apesar de Manu não querer ter relações sexuais com Adrien. Um dia eles visitam Sarah, uma escritora de livros infantis que teve um filho recentemente, e Mehdi, o marido dela, que é policial. Sarah e Mehdi têm um casamento liberal, onde ambos estão livres para terem diversos amantes. Após salvar Manu de um afogamento, Mehdi inicia um caso com ele. Porém o que ninguém esperava era que Manu começasse a apresentar sintomas de uma nova doença, que surgia na época.

Um painel realista sobre o impacto do surgimento da AIDS nos anos 80. “As Testemunhas” apresenta as sensações e preocupações da época através de um pequeno grupo de personagens: o médico que luta para descobrir alguma cura, o parceiro sexual que teme ter sido também infectado, o impacto da doença nos familiares e, é claro, a própria transformação de um jovem feliz com a vida que tinha e que agora precisa lidar com a certeza da morte. Vale lembrar que a trama se situa na metade dos anos 80, quando a AIDS estava sendo descoberta. Não existiam os remédios atuais e ter o vírus era quase certeza de falecimento. É este ambiente, de insegurança e medo, que o filme consegue transmitir ao espectador.

Enquanto o filme focaliza a batalha contra a AIDS ele até funciona bem. Apesar de ser um tema batido e não trazer algo de novo, é bem feito e cumpre seu objetivo. Só que ele se estende além do necessário, mostrando uma espécie de “dia seguinte” dos personagens. A 3ª parte poderia ser retirada da trama sem prejuízo algum. Trata-se de um filme correto, com boa atuação de Michel Blanc, mas apenas isto.

As Testemunhas (Les Témoins), de André Techiné, França, 2007, 115′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 6,0

O Búfalo da Noite

Gregorio é um jovem esquizofrênico, que deixou recentemente o hospital. Ele namorava Tania, que iniciou um caso com Manuel, o melhor amigo de Gregorio, enquanto estava internado. Logo após receber alta Gregorio se mata, o que faz com que Tania desapareça por uns dias. Já Manuel recebe uma caixa enviada por Gregorio, que contém pequenos bilhetes por ele escritos.

O roteirista Guillermo Arriaga se notabilizou pelos filmes que fez em parceria com o diretor Alejandro González-Iñárritu. Aqui é seu livro que é adaptado, pelo próprio Arriaga e por Jorge Hernandez Aldana, também diretor do filme. Pode-se perceber algumas semelhanças no formato da história, como a trama fragmentada e narrada de forma não-linear. Trata-se, em sua essência, de um filme sobre o sentimento de culpa e as contradições que ela provoca.

Além disto O Búfalo da Noite apresenta uma situação que tem se tornado relativamente comum nos dias atuais: o relacionamento pelo sexo. Manuel (Diego Luna) e Tania (Liz Gallardo) pouco conversam ou se encontram fora do apartamento 803, o reduto onde se encontram para transar.

E não é só entre eles que isto acontece, mas com todas as conquistas do personagem de Diego Luna. Há diversas cenas de sexo no filme, inclusive com nu frontal masculino e feminino. Este lado ressalta a grande contradição entre Manuel e Tania, que volta e meia se declaram apaixonados um pelo outro mas pouco se entendem quando estão fora da cama. As próprias atitudes de ambos reafirmam esta situação, ela às vezes agindo contra Manuel e ele traindo-a seguidamente, sem qualquer remorso. Surge então a questão: o sentimento entre eles é mesmo amor ou apenas desejo carnal, daqueles avassaladores? Os personagens jamais enfrentam este questionamento, mas é algo que surge naturalmente na mente do espectador.

Independente do que seja o relacionamento entre Manuel e Tania, ambos precisam lidar com o suicídio de Gregorio e o fato de que o traíram - ela o namorado, ele o melhor amigo. Seu fantasma assombra a vida de ambos, o que gera mais uma contradição: ao mesmo tempo em que se desejam, ou se amam, sentem-se culpados pelo ocorrido.

Entretanto O Búfalo da Noite tem um pecado inexplicável: a súbita aparição da personagem Rebeca, que nada faz na trama além de atender ao pedido de Manuel para que fique nua. É, apenas isto, não há referência alguma à personagem no restante da história. Apesar disto trata-se de um bom filme, com destaque para a bela fotografia em tom azulado.

O Búfalo da Noite (El Bufalo de la Noche), de Jorge Hernandez Aldana, México, 2007, 99′ (LP)

Mostra Première Latina

Nota: 7,0

Ficha no Adoro Cinema

Planeta Terror

Numa cidadezinha americana, estranhos experimentos são realizados numa base militar. Cherry, uma go-go girl, encontra num café de beira de estrada El Wray, seu antigo amor. Ele oferece uma carona, mas no meio do caminho o casal é atacado por bizarras criaturas que comem a perna da moça. Enquanto isso, os médicos William e Dakota são surpreendidos no hospital por uma legião de decepados e mutilados, que logo se revelam zumbis assassinos. Os mostros avançam sobre a cidade, disseminando o terror.

Em conjunto com o já comentado À Prova de Morte, Planeta Terror é a outra metade de Grindhouse, projeto duplo realizado por Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. A proposta era criar um filme intencionalmente barato, com efeitos toscos e muito sangue. Em termos de proposta, podemos dizer que Rodriguez se saiu melhor que Tarantino. Seu filme realmente parece uma bomba barata feita nos anos 60/70. Imagem cheia de chuviscos e riscos, fotografia granulada, roteiro mirabolante e muitas tomadas nojentas.

Mas, num incrível paradoxo, reside justamente na competência em seguir o proposto o maior problema de Planeta Terror. Rodriguez levou a missão tão a sério que a precariedade do filme incomoda. Enquanto o longa de Tarantino brinca com os “defeitos especiais”, inserindo-os ocasionalmente, Rodriguez realmente fez o filme inteiro daquele modo. E por mais que o espectador esteja ciente de que aquela pobreza técnica é intencional, depois de um certo tempo fica cansativo. Mas não se pode negar que a idéia é criativa e só mesmo dois loucos com muito prestígio poderiam realizá-la. Também vale ressaltar o genial falso trailer que precede o filme em si. Uma pérola.

Detalhe: a sessão em que assisti ao longa teve um bônus que ajudou a entrar no clima. Devido a um atraso na chegada de um dos rolos do filme, a projeção teve que ser paralisada no meio para a troca do mesmo. Muito Grindhouse. Só faltou a platéia começar uma guerra de pipocas.

Planeta Terror (Planet Terror), de Robert Rodriguez, EUA, 2007. 97’ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 6,5

O Assaltante

Um senhor distinto, educado e bem-vestido realiza um assalto. A câmera segue o personagem em cada detalhe da ação, bem como na sua fuga do local e ações posteriores. Apresentado na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2007 e selecionado para o Festival de San Sebastián do mesmo ano.

O longa tem um começo bem intrigante. O assaltante parece um senhor acima de qualquer suspeita, o que faz com que sua atitude súbita seja um choque não apenas para a moça que sofre o assalto mas também para o espectador. Sua tensa fuga também aumenta a tensão inicial e tem-se a impressão de que vem por aí algo bem original. Mas, passada essa abertura, o interesse pela trama começa a entrar em declínio.

O filme adota um formato de reality show, com várias seqüências ocorrendo em tempo real. Interessante, se não fosse superficial ao extremo. A câmera, preguiçosa, segue o protagonista em suas ações. Mas não ficamos sabendo quase nada sobre ele e muito menos sobre suas motivações. E quando, ao final, a trama resolve esclarecer alguma coisa… Bom, aí tudo piora. A cena final é tão “nada a ver” que era melhor ter deixado tudo no campo dos mistérios. Talvez o espectador conseguisse criar uma explicação melhor do que a mostrada na tela.

O Assaltante (El Asaltante), de Pablo Fendrik, Arg, 2007. 67’ (LEP)

Première Latina

Nota: 4,5

28 de set de 2007

A Garota do Lago

Em uma pequena comunidade ao norte da Itália é encontrada uma garota morta, à beira de um lago. O comissário Sanzio é chamado ao local, para investigar o caso.

Um filme simples, mas bem feito. O início lembra bastante os primeiros episódios da série de TV “Twin Peaks”, pelas características da história: uma cidade pequena, onde todos sabem sobre todos; uma garota bela que morre em circunstâncias estranhas; alguém investigando o caso e tentando adentrar naquele universo particular. Mas a comparação pára por aí: “A Garota do Lago” não tem as bizarrices de “Twin Peaks”. A história segue a linha tradicional de investigar a vida dos moradores e, através de interrogatórios e da lógica, desvendar o caso. Não é original, mas funciona bem e prende a atenção.

A Garota do Lago (La Ragazza del Lago), de Andrea Molaioli, Itália, 2007, 95′ (LEP)

Mostra Expectativa

Nota: 6,5

Piaf - Um Hino ao Amor

Cinebiografia de Edith Piaf, uma das mais famosas cantoras da França em todos os tempos.

Se este fosse um filme americano, apostaria minhas fichas em muitas indicações ao próximo Oscar. Como é francês a situação complica um pouco, já que é difícil que filmes estrangeiros consigam várias indicações na premiação. Muitas vezes nem é por demérito do filme, mas pela política interna, que acaba favorecendo os filmes locais. Algo até natural, qualquer premiação é assim - basta lembrar do explícito favorecimento do BAFTA aos filmes ingleses.

Piaf é um filme belíssimo. De emocionar mesmo. Muito bem produzido e roteirizado, mostrando diversas fases da vida de Edith Piaf de forma intercalada, sem jamais confundir o espectador. Tudo embalado pelas músicas da cantora, que permeiam todo o longa-metragem. Só por elas já valeria assistir ao filme, mas Piaf oferece muito mais.

Porém todo o capricho na produção poderia ser desperdiçado caso a escolha da intérprete de Piaf fosse equivocada. Não é. Marion Cotillard está exuberante em cena. Ela adquiriu os trejeitos de Piaf, sua forma de andar… é algo realmente impressionante. Seu olhar transmite uma angústia pela vida sofrida e ao mesmo tempo a esperança em ser aceita pelo público. É algo cativante, até mesmo difícil de explicar. É preciso ver e se admirar.

Piaf não é apenas um dos melhores filmes deste Festival do Rio, é dos melhores filmes do ano. Veja e não se esqueça de levar um lenço. É difícil resistir ao choro em determinadas cenas, especialmente na reta final.

Piaf - Um Hino ao Amor (La Môme), de Olivier Dahan, França/UK/República Tcheca, 2007, 140′ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 9,5

XXY

Quando Alex nasceu com órgãos de ambos os sexos, seus pais resolveram ignorar os conselhos médicos para corrigir a ambigüidade. Para criar a filha num ambiente mais livre de pressões, a família sai de Buenos Aires e migra para um pequeno vilarejo no Uruguai. Só que, aos 15 anos, Alex está descobrindo o corpo e seus próprios caminhos biológicos. A crise se torna mais grave quando a família recebe um casal de amigos e o filho adolescente destes. Prêmio da Crítica no Festival de Cannes 2007.

Bom filme. Enfoca com naturalidade o modo com a família reage perante o problema, sem fazer sensacionalismo do fato da filha ser hermafrodita. Alex é uma menina andrógina, sem sombra de dúvida, mas não muito diferente de várias jovens que vemos por aí. Sua ambigüidade sexual se manifesta em pequenos detalhes e gestos e os conflitos familiares tampouco são muito diversos dos de qualquer família. O pai aceita bem a filha “diferente”, enquanto a mãe tem uma tendência maior a querer “normalizá-la”. Também é muito curioso o modo como a menina, até então excessivamente protegida do mundo, descobre sua sexualidade e os vários desdobramentos que daí podem surgir.

O argentino Ricardo Darín, quase sempre garantia de bom filme, se destaca como o pai. Também é muito intensa a presença de Inés Efron como Alex. Dúbia, intensa, confusa, enfim, a jovem atriz defende seu papel com incrível riqueza emocional. O mesmo não se pode dizer do inexpressivo Martín Piroyansky como Alvaro. Está certo que seu personagem é um nerd, mas o rapaz precisava passar o filme inteiro com aquela expressão única de bobo alegre?

No final das contas, XXY é um filme sobre identidade. Todos nascemos com uma imagem pré-estabelecida de homens ou mulheres, embora ela possa ser alterada ao longo de nossas vidas. Mas e quando há dois caminhos a escolher, ambos em igual proporção? E se, na infância, a escolha for equivocada? Dá o que pensar.

Só não deu para entender direito o porquê da inclusão do filme na Mostra Mundo Gay.

XXY (idem), de Lucía Puenzo, Arg/Esp/Fra, 2007. 91’ (LEP)

Mostra Mundo Gay

Nota: 7,0

Portugal S.A.

Jacinto é um alto executivo que penou muito para conquistar seu atual lugar de destaque como o braço direito do poderoso Alexandre Boaventura, um dos maiores investidores de Portugal. Jacinto vive dividido entre a política e os negócios privados e também entre a lealdade ao patrão e sua ética pessoal. Seus dilemas aumentam ainda mais com a volta ao país da sedutora e inteligente Fátima, seu amor do passado.

Antes de mais nada, é preciso desconsiderar o nome de Ruy Guerra nos créditos. Esse não é, definitivamente, um filme de Ruy Guerra (ele mesmo declarou que dirigiu o longa por encomenda). Inventivo, ousado e nada convencional, o cineasta não merece ter seu nome e carreira vinculados a um filme como Portugal S.A.

A trama do filme é novelesca, maniqueísta e repleta de frases feitas. No começo até impressiona, ao mostrar - num estilo meio O Poderoso Chefão - altas jogadas financeiras e políticas sendo tecidas durante uma festa de casamento. Mas logo começa um interminável e aborrecido joguinho de gato-e-rato entre todos os personagens. Do tipo todo mundo é gente fina e ninguém presta. E tome discussões pseudo-sociológicas, vilanias, traições e sexo. Muito sexo. O bom é que quando os personagens estão em suas tomadas eróticas, não somos obrigados a escutar os diálogos sofríveis. É como ver uma novela, só que com toda a trama condensada em noventa minutos. Você quase espera que surja na tela a Maria de Fátima ou a Odete Roitman.

Detalhe: também em Portugal os malfeitores planejam fugir para o Brasil.

Portugal S.A. (idem), de Ruy Guerra, Portugal, 2004. 90’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 3,0

Cem Pregos

Um estranho ato de vandalismo assombra as autoridades italianas: alguém pregou cem livros ao chão da biblioteca da Universidade de Bolonha. Quando um professor de filosofia desaparece misteriosamente, tudo indica ser ele o culpado. Em seu refúgio numa casa em ruínas às margens do rio Pó, o ex-professor é objeto da curiosidade dos habitantes e logo passa a ver visto como um profeta divino.

Nada nessa história faz muito sentido. Nem o ato de vandalismo do protagonista, nem sua conseqüente fuga e muito menos o fato dele começar a ser chamado de Jesus pelos novos vizinhos. Está certo que o sujeito até tem uma semelhança com a imagem de Cristo difundida por aí, mas daí os outros personagens começarem a tratá-lo como se fosse o próprio vai uma grande diferença. E Cem Pregos é repleto das mais pífias analogias cristãs. Os pregos usados para prender os livros ao chão são daqueles enormes, ou seja, parecidos com os que os romanos usavam para pregar os condenados à cruz. Livros crucificados? Faça-me o favor! Pior do que isso só a explicação dada para tamanho despropósito.

Além dos absurdos da trama, tampouco há desenvolvimento dos personagens. Eles simplesmente falam e executam ações, sem que fique claro quem são aquelas pessoas e o que as motiva a agir daquela forma. E o que não faltam são atitudes estranhas. Sem contar a breguice dos diálogos. Cada vez que o protagonista, com sua voz mansa e olhar perdido, se dispõe a socializar suas lições edificantes, ouvimos frases que parecem saídas do mais vagabundo dos livros de auto-ajuda. “Minutos de Sabedoria” é obra de James Joyce perto do que sai da boca do personagem. Não nos esqueçamos de que o cara é um professor de filosofia.

Para fechar a tampa do caixão, é mais um filme com trilha sonora inconveniente. Isso tem se mostrado um problema recorrente nesse Festival. Aqui, a música vai de uns irritantes acordes angelicais durante os sermões a sons hitchcockianos quando qualquer coisa está para acontecer, por mais banal que seja. Um despropósito completo.

Cem Pregos (Centochiodi), de Ermanno Olmi, Itália, 2007. 92’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 0

Amor e Outros Desastres

Jacks é uma americana alegre e sofisticada que mora em Londres e trabalha na produção dos ensaios fotográficos da Vogue. Seu passatempo favorito é tentar arrumar namorados para os amigos, embora sua própria vida sentimental seja um caos. Sua principal vítima é Peter, amigo com quem divide o apartamento. Peter é um roteirista com problemas de auto-estima que vive relacionamentos imaginários. Quando o charmoso Paolo começa a trabalhar no estúdio da revista como assistente do fotógrafo, Jacks acredita ter encontrado o par perfeito para Peter.

Pela sinopse, Amor e Outros Desastres parece uma comédia romântica dessas bem bobinhas. E a presença de Brittany Murphy, que ficou conhecida por coisas como Recém-Casados, não ajuda nem um pouco a aliviar essa impressão. Mas não é preciso muito tempo para perceber que estamos diante de um filme bem mais espirituoso e original.

Jacks, personagem de Brittany, é caracterizada como uma versão moderna de Audrey Hepburn. Ou melhor, Holly Golightly, a própria Bonequinha de Luxo. E existem milhões de referências não apenas a esse filme, mas a vários outros clássicos (como A Malvada) e também às regras que vigoram em determinados gêneros de filme. Um exemplo do humor sofisticado que pontua o roteiro: quando Jacks comenta com Peter que uma amiga em comum, que escreve poemas terríveis, tem Sylvia Plath como ídolo, este comenta sarcasticamente que ela deveria procurar um forno. Ou quando eles discutem se a vida não poderia ser como num filme e Peter olha para a moreníssima Jacks e dispara: “num filme você seria loura”. Outro destaque fica por conta das situações que Peter cria na imaginação, todas hilárias.

O estilo do filme lembra um pouco Sintonia de Amor (pela homenagem a um clássico) e Abaixo o Amor (no sentido de fazer um filme dentro das estruturas da comédia da década de 50), mas de um modo bem mais anárquico. Amor e Outros Desastres tem vários filmes dentro de um único filme, todos unidos por um roteiro tão redondinho e simpático que é impossível não sair do cinema com um sorriso no rosto. Os amantes dos filmes de Audrey Hepburn e Doris Day, então, vão achar uma delícia. Uma dica: prestem atenção nos créditos de abertura.

Amor e Outros Desastres (Love and Other Disasters), de Alek Keshishian, UK/EUA/Fra, 2006. 90’ (LEP)

Mostra Mundo Gay

Nota: 8,0

La Señal

O cenário é a Argentina peronista de 1952, quando Evita agoniza e o povo reza por ela. O detetive particular Corvalán é contratado pela femme fatale Gloria para uma investigação de rotina que logo se transforma numa trama cheia de mortes, vingança e reviravoltas. Apesar das advertências de seu sócio Santana e da própria consciência lhe indicar que está entrando num jogo perigoso, Corválan não consegue recuar e se envolve cada vez mais com Gloria.

Um típico film noir, com direito a todos os elementos do estilo: mulher fatal, detetive durão e ingênuo, tramóias, chantagens, assassinatos e, principalmente, muitas mentiras. Além disso, conta com boa direção de arte, figurino vistoso, trilha sonora impecável, enfim, um trabalho pra lá de caprichado. Em sua estréia na direção, o ator argentino Ricardo Darín prova que o noir clássico pode ter tempero latino sim senhor. La Señal não chega a ter a inteligência de Chinatown nem o deslumbre estético de Dália Negra, mas é um filme cheio de charme e estilo. E ainda conta com a presença de Darín, certamente o melhor e mais carismático ator argentino.

La Señal (idem), de Ricardo Darín e Martín Hodara, Arg/Esp, 2007. 95’ (LP)

Première Latina

Nota: 8,0

27 de set de 2007

O Preço da Coragem

Daniel Pearl é um jornalista do Wall Street Journal, que está sediado em Karachi, no Paquistão. Através de uma fonte ele marca um encontro público com um xeique, mas jamais retorna. Sua esposa, Marianne, que também é jornalista, inicia uma busca para tentar salvá-lo, contando com a ajuda da polícia local, da embaixada americana e do jornal em que trabalha.

O diretor Michael Winterbottom é conhecido por seus filmes de denúncia, como Caminho para Guantánamo e Neste Mundo. Angelina Jolie também tem se dedicado à causa, geralmente fora do cinema. Com este histórico, nada mais natural para ambos do que o interesse pela história de Mariane Pearl - uma história real, vale lembrar. O Preço da Coragem é um filme que relata com competência o ocorrido, ressaltando o lado técnico da investigação em detrimento do emocional. O que é também uma referência ao comportamento da própria Mariane, que não se desespera assim que sabe do sequestro e busca forças para encontrar o marido. O exibido é um retrato de como tudo é encarado por ela: de forma preocupada, mas esperançosa.

Destaque para a boa atuação de Angelina Jolie, que consegue passar com o olhar a angústia de sua personagem até a derradeira explosão.

O Preço da Coragem (A Mighty Heart), de Michael Winterbottom, EUA, 2007, 100′, LP

Mostra Panorama

Nota: 7,0

Ficha no Adoro Cinema

Blood Brothers

Kang, Feng e Xiao Hu são irmãos e vivem numa pequena cidade do interior da China. Eles sonham em se mudar para Xangai e, quando conseguem, passam a trabalhar no Clube Paraíso, uma espécie de restaurante com shows diários. O local é comandado pelo mestre Hong, um influente produtor de cinema que também tem negócios no crime. Logo Kang ascende na organização, sendo o responsável por realizar “serviços sujos” para Hong. Os irmãos o ajudam em seu trabalho, até que a ordem para matar a cantora do Clube Paraíso faz com que eles se dividam.

Eis um filme que gostaria de ver refilmado, por um bom diretor. A história não é ruim, mas é muito mal desenvolvida. O início bucólico, ressaltando a inocência da cidade-natal, chega a ser irritante de tão ingênuo. A trilha sonora é repetitiva ao extremo, seguindo a linha do cinema hollywoodiano. Você a ouve e a reconhece de dezenas de outros filmes, é inevitável para quem tem alguma bagagem cinematográfica.

O filme apenas melhora quando os irmãos passam a trabalhar com Hong. É neste ponto que ele mostra que poderia ser um bom filme de gângsters, pois os elementos necessários estão lá: a ascensão ao poder, o conflito entre irmãos, as dúvidas em torno de suas atitudes, o contraste entre o que eram e no que se tornaram. Só que, mesmo nesta fase, a direção prejudica. Até mesmo as cenas de ação são rápidas demais, sem que haja uma boa preparação para que sejam o ápice da história. A sensação que fica é a de um bom material que foi mal aproveitado, o que torna o filme apenas mediano.

Blood Brothers (Tiang Tang Kou), de Alexi Tan, Taiwan, 2007, 95′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 5,0

A Via Láctea

Heitor e Júlia se conheceram em uma peça teatral e namoram desde então. Um dia eles discutem por telefone, o que faz com que ela termine o relacionamento. Heitor decide resolver a situação pessoalmente, o que o faz ir de carro até a casa dela. Porém o engarrafamento de São Paulo e diversas outras situações o atrapalham.

A cena inicial é surpreendente: close em Marco Ricca e a música-tema de “Tom & Jerry” tocando. É, “Tom & Jerry” mesmo. A surpresa provocada já aumenta a expectativa pelo que vem a seguir.

Trata-se de um filme não-linear, cuja história é narrada de forma fragmentada e usando muito o flashback. A história se divide entre a busca de Heitor por Júlia, e suas divagações sobre o porquê dela ter rompido o namoro, com questões filosóficas e literárias, envolvendo a vida e situações por eles passadas. O próprio título é uma referência a uma destas questões, que estão espalhadas no decorrer de todo o longa-metragem.

Mesmo com tantas citações e divagações, A Via Láctea sempre se prende, de alguma forma, à busca de Heitor por Júlia. Esta busca toma um rumo confuso em sua 2ª metade, o que faz com que o filme meio que se perca em sua própria história, mas é parcialmente corrigido em seu desfecho, que amarra várias das pontas soltas. Destaque para a trilha sonora, bem escolhida pela diretora Lina Chamie - formada em Música e Filosofia pela Universidade de Nova York -, e para a cena do esconde-esconde na livraria, simples e bonita.

A Via Láctea (idem), de Lina Chamie, Brasil, 2007, 88′

Mostra Première Brasil

Nota: 6,5

Ficha no Adoro Cinema

Mutum

Em Mutum, região isolada do sertão de Minas Gerais, vivem Thiago e sua família. Introspectivo, observador, Thiago, aos dez anos, se sente diferente de todos. É através da sua perspectiva que o filme apresenta o mundo rude dos adultos. Participou da Quinzena dos Realizadores em Cannes 2007.

Première de Mutum, cinema Palácio 1 lotado. Atraso. Expectativa. Já nos primeiros minutos de filme, constata-se o frustrante problema: em inúmeras cenas, é impossível ouvir o que os atores dizem. Claro que, nesses casos, o problema poderia ser da sala de exibição. Mas não era, já que havíamos acabado de assistir a um curta nacional e tudo estava inteligível. A salvação da lavoura foi a legenda eletrônica… em inglês.

Mas, afinal, que som era aquele? Será que o fato do filme estar com legenda eletrônica significa que o som ainda não foi devidamente ajustado? Neste caso, e o pobre espectador que não entende patavinas de inglês? Não sou engenheira de som, fica difícil precisar exatamente o que ocorreu, mas foi muito esquisito porque em várias partes os sons da natureza eram mais altos do que a voz dos atores. Antes que se credite a reclamação a alguma deficiência auditiva da colunista aqui, vale ressaltar que presenciei um casal na fileira da frente em estado desespero por não conseguir ouvir com clareza e nem acompanhar as legendas.

Problemas sonoros à parte, Mutum é um filme realizado com capricho. O universo de Guimarães Rosa é mostrado com sensibilidade e poesia. OK. Mas, com todo respeito ao célebre autor, a trama do filme se parece com milhões de outras histórias já mostradas anteriormente. Pobreza, sertão, infância explorada e maltratada, etc. E, não bastasse o tema batido, Mutum também se abstém de apresentar qualquer outro tipo de inovação em termos de perspectiva. É um filme correto e cuidadoso, porém convencional ao extremo. Mantém o interesse graças ao carisma do elenco. O talentoso João Miguel, figura onipresente do atual cinema nacional, tem excelente química com os promissores Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso.

Mutum (idem), de Sandra Kogut, Bra/Fra, 2006. 95’

Première Brasil

Nota: 5,0

Perdidos em Pequim

Após uma noite de bebedeira, a jovem Ping Guo é violentada por seu patrão. Seu marido testemunha o fato e decide extorquir o empresário, chantagem que toma enormes proporções quando Ping descobre que está grávida. A perspectiva de dar ao rico homem o filho que ele nunca conseguiu ter com a esposa pode significar a independência financeira do casal, mas também a decadência da relação.

É, você já viu isso antes. E nem foi num filme tão bom assim. Podemos dizer que Perdidos em Pequim é uma mistura de Proposta Indecente com as mais cafonas novelas mexicanas. O que dá pena é que a história em si poderia render um filme bastante provocante se tivesse sido tratada de um modo menos melodramático. A trama tem diversos elementos interessantes, como, por exemplo, a figura do patrão, que passa da imagem de estuprador à de vítima das circunstâncias. Ou do marido, que se aproveita do papel de traído para lucrar. E a própria Ping também é uma figura bastante dúbia: logo no início do filme, se revela uma mulher de sexualidade exacerbada. E, quando atacada, seu comportamento varia entre a rejeição e a excitação. Teria ela, em meio ao porre, desejado o patrão? Nas mãos de um diretor mais ousado, poderia ser um filme realmente transgressor.

Perdidos em Pequim (Ping Guo), de Li Yu, China/Hong Kong, 2007. 112’ (LEP)

Foco China

Nota: 4,0

Uma Velha Amante

Ambientado na sociedade parisiense do século XIX, o filme mostra a trajetória do belo e malvisto Ryno de Darigny. Após viver um caso de mais de dez anos com Vellini, uma disputada cortesã, Ryno se apaixona pela casta e rica Hermengarde. A despeito do consentimento da família para se casar com Hermengarde, a maior batalha para Ryno será conseguir romper com a temperamental Vellini. Exibido no Festival de Cannes 2007.

História mal-ajambrada, com personagens soltos, situações incoerentes e atores do pior nível. Uma espécie de cópia - infinitamente inferior - das mesmas situações básicas de Ligações Perigosas. Só que, neste caso, os antagonistas falam que vão fazer e acontecer e acabam desistindo de seus propósitos vis sem mais nem menos. Aliás, os personagens que pareciam ser os antagonistas simplesmente desaparecem e voltam a aparecer já perto do desfecho, mas num estado de espírito totalmente apaziguador. Vai entender.

Como se não bastasse, Uma Velha Amante ainda comete o pecado de ser incrivelmente chato. Grande parte do filme se resume a uma coletânea das aventuras sexuais narradas pelo protagonista. A quem interessam suas idas e vindas para os braços da amante? Só mesmo à desocupada da personagem que passa uma considerável parte do filme ouvindo tal relato. Mas não é só. O filme ainda tem uma seleção de analogias rasas, como uma forçadíssima correlação entre o fato de Vellini ser filha de um toureiro e sua fascinação por sangue. Puro exibicionismo. E Asia Argento fazendo aquela cara de maluca de sempre, só que com roupas de época e tatuagens devidamente escondidas.

Só para dar uma idéia do nível de esquizofrenia da história, em determinada hora Ryno e Vellini vão viver na Argélia. E, de repente, lá estão eles: dois parisienses cheios de finesse no meio do deserto, vestidos como beduínos. Convenhamos: ninguém precisa ir para o meio do nada só para evitar fofocas ou um marido ciumento.

Uma Velha Amante (Une Vieille Maîtresse), de Catherine Breillat, Fra/Ita, 2007. 114’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 1,0

26 de set de 2007

A Última Hora

Uma coletânea de depoimentos de personalidades e cientistas sobre a questão do aquecimento global, incluindo suas causas e possíveis soluções para a crise.

É preciso não confundir a importância do tema com o filme em si. A questão do aquecimento global é grave e merece o debate em todos os âmbitos possíveis. Entretanto isto não significa que qualquer filme que aborde o assunto seja automaticamente bom, simplesmente por tê-lo feito. Um filme pode até servir de alerta, mas isto não o exime da responsabilidade de ser bem feito. E este é o grande problema de A Última Hora.

O documentário segue a linha de Uma Verdade Incoveniente, aclamado mundialmente. Pode-se dizer que trata-se de uma espécie de sub-produto, já que repete muito do que já foi visto e, pior ainda, ressalta os defeitos do filme estrelado por Al Gore. Se em “Uma Verdade…” já pouco se falava sobre os efeitos do aquecimento em escala global - África e América do Sul são quase que excluídos -, aqui isto é ainda mais explícito: A Última Hora é sobre os Estados Unidos e ponto final. Em ambos os filmes existe um claro ataque ao governo americano, mas aqui ele aparece de forma estranha, puxando o tema de uma revista que é bancada e censurada. Apesar de até ter relação com o aquecimento global, já que a matéria mostrada citava justamente isto, trata-se de algo um tanto quanto fora de contexto em relação ao que A Última Hora se propõe a ser. O ataque soa gratuito, para ser mais claro.

Outro grave problema de A Última Hora é seu formato, que lembra bastante o usado pelo picareta The Secret - O Segredo. Uma série de personalidades, algumas bem famosas e outras nem tanto, falando alucinadamente sobre o tema, sem apresentar qualquer fundamentação. É tipo assim: se Stephen Hawkins, gênio consagrado, diz isso ele deve estar certo, não é preciso provar algo. Tudo bem, os efeitos do aquecimento global são visíveis a qualquer um de nós, mas o filme trata o tema sem jamais oferecer ao espectador algo além do que ele próprio já sabe. “Uma Verdade…” ao menos se preocupava com isto, com os gráficos apresentados e as comparações de fotos, enquanto que A Última Hora quer convencer mais pela fama de seus entrevistados do que pelo seu conteúdo.

É claro que, ao término da sessão, houve aplausos. E eles devem ser dados para o esforço na conscientização sobre o aquecimento global, mas não para o filme.

A Última Hora (The 11th Hour), de Nadia Conners e Leila Conners, EUA, 2007, 91′ (LP)

Mostra Expectativa

Nota: 3,0

Ficha no Adoro Cinema

Sem Fôlego

Yeon é uma imaginativa e sensível escultora que se sente anestesiada por sua vida aparentemente perfeita. Embora cercada de conforto e beleza, seu marido é infiel e a trata com indiferença. Quando vê no noticiário a história de Jin, um condenado à morte que tentou o suicídio pela segunda vez, Yeon, seguindo um impulso incontrolável, decide visitá-lo. A partir dessa iniciativa, os dois principiam um estranho e cada vez mais sólido relacionamento. Seleção Oficial do Festival de Cannes 2007.

O coreano Kim Ki-Duk tem um estilo bem particular. Seus personagens são sempre pessoas comuns que, motivadas por sentimentos avassaladores, partem para atitudes nada convencionais. Foi assim como o belo Casa Vazia e o confuso Time. Esse seu novo trabalho talvez seja o mais bem-resolvido de todos, por ter a poesia do primeiro e a ousadia do segundo. Sem Fôlego é de um lirismo e criatividade que encantam, mesmo nas passagens em que a história poderia soar incoerente.

O encontro da jovem desiludida com o assassino (também ele uma pessoa que abandonou todas as esperanças) e a força do sentimento desesperado que nasce entre esses dois condenados é de uma beleza comovente. O modo como Yeon se empenha em tornar os últimos dias de Jin um resumo de tudo que ela poderia lhe oferecer se a vida os tivesse reunido em condições mais favoráveis é algo que traz a salvação dela também, pois encontrou alguém que aprecia e precisa da sua imaginação que até então estava estagnada. Yeon transforma a penitenciária e os poucos minutos de visitação num universo mágico, a ponto de recriar as estações do ano e suas sensações.

É um filme cheio de simbolismo e delicadeza, marcado por uma comunicação mais sensorial do que verbal entre os dois personagens centrais. Também o título é bastante apropriado, já que a respiração está sempre em destaque: ofegante, prazerosa, assustada, enfim, como um termômetro do estado espírito de cada um. E o fôlego - ou a falta dele - é assunto para uma das mais belas cenas que ocorrem entre os personagens.

Um dos melhores filmes até o momento.

Sem Fôlego (Breath), de Kim Ki-Duk, Coréia do Sul, 2007. 84’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 8,5

Ficha no Adoro Cinema

I'm Not There

Uma representação livre do universo de Bob Dylan e suas diversas facetas. Jovem poeta, ícone folk, roqueiro rebelde, cristão convertido, caubói solitário e, sobretudo, porta-voz de toda uma geração. Suas revoluções musicais e estéticas eram um espelho das mudanças do mundo, em especial nos valores da sociedade americana. Exibido nos Festivais de Toronto e Veneza deste ano.

Neste filme, Dylan é interpretado por seis atores diferentes: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger e Ben Wishaw. Todos são ele. Nenhum é ele. Na verdade, são personalidades independentes que, reunidas, formam o caleidoscópio que é Bob Dylan.

I’m Not There não apenas acompanha as metamorfoses de Dylan como também as exemplifica na própria estrutura do longa. Para cada faceta do biografado, temos um estilo diferente. É como se fosse um filme com seis episódios, incluindo aí um autêntico western que faz uma correlação entre o Dylan mais maduro e o fora-da-lei Billy the Kid. E o mais impressionante é que há uma estranha harmonia no todo, a despeito das partes serem tão dissonantes entre si. A cena de abertura do filme mostra uma morte fictícia – ou melhor, metafórica – do ídolo. Talvez a chave para tão bizarro pressuposto esteja na própria canção que dá título ao longa, que diz em sua última estrofe: “I’m not there, I’m gone” - eu não estou lá, eu fui embora (ou estou acabado).

Sem dúvidas I’m Not There é um filme extremamente criativo e referencial. O único problema é que esse excesso de referências pode ser uma faca de dois gumes. Se, por um lado, levará os fãs de Bob Dylan ao êxtase, por outro é um pouco excludente com aqueles que não estão totalmente familiarizados com suas letras. Eu, particularmente, confesso que “boiei” em diversas passagens. O que não me impediu de apreciar outras qualidades evidentes, como a estética deslumbrante, a concepção imaginativa e a fabulosa interpretação do elenco. E, como não poderia deixar de ser, a deliciosa trilha sonora.

Para quem quiser se prevenir, uma boa opção é assistir antes a No Direction Home, documentário de Martin Scorsese sobre o homem.

I’m Not There (idem), de Todd Haynes, EUA, 2007. 135’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 8,0

Ficha no Adoro Cinema

25 de set de 2007

Eichmann

Adolf Eichmann era o responsável pelo transporte de judeus durante o Holocausto, sendo acusado pela morte de 6 milhões de pessoas. Foragido após a 2ª Guerra Mundial, ele é capturado na Argentina e agora está preso pela polícia israelense. A população local deseja que ele seja morto imediatamente, mas o governo decide levá-lo à julgamento e pedir sua pena de morte. Com isso o policial Avner Less é designado para encontrar provas que possam incriminá-lo, o que faz com que tenha diversos interrogatórios com Eichmann.

Já temos o vencedor do prêmio de pior ator do Festival do Rio 2007! Trata-se de Troy Garity, intérprete de Avner Less. Ele é impressionante. Tristeza, alegria, raiva, frustração, preocupação, ansiedade… tudo isso representado numa única expressão: estática. Lá para a reta final Garity consegue esboçar um sorriso, o que prova que não sofre de paralisia muscular na face. O cara é um monstro da dramaturgia - no mau sentido, é claro.

Mas não é este o único problema de “Eichmann”. O filme inteiro é uma bomba, daquelas bem caprichadas. A começar pelo tema. A 2ª Guerra Mundial é um assunto tão explorado pelo cinema que um filme que novamente a enfoque deve buscar um ângulo diferente para contar sua história. Como A Queda - As Últimas Horas de Hitler ou Uma Mulher Contra Hitler, por exemplo. Aqui não, é a repetida história dos absurdos nazistas cometidos contra os judeus. Não me entendam mal, não estou insinuando que o ocorrido no Holocausto deva ser esquecido ou algo do tipo. Apenas que este assunto já foi explorado à exaustão, em dezenas de filmes. “Eichmann” não se arrisca em nada, é um filme absolutamente convencional dentro deste tema. E isso já faz com que ele perca alguns pontos.

Entretanto mesmo filmes convencionais sobre a 2ª Guerra Mundial podem ser bons, dentro de suas limitações, caso sejam ao menos bem feitos. Novamente, não é este o caso. A investigação feita por Avner parece amadora. O personagem jamais enfrenta Eichmann ou tenta pressioná-lo. Em várias cenas ele até abaixa os olhos, passando a impressão de impotência e submissão ao prisioneiro nazista. O que se vê é uma sucessão de perguntas, algumas repetidas, que servem apenas de justificativa para apresentar as situações citadas em flashback.

E tem ainda os diálogos! O melhor deles, uma verdadeira pérola, é quando Avner pergunta do transporte de crânios humanos num vagão de trem. Eichmann dá uma resposta qualquer e Avner, sempre atento, responde de imediato: “mas antes estes crânios estavam vivos, onde você os encontrou?”.

Crânios vivos, meus caros, crânios vivos. Chega, né?

Péssimo filme, nome certo e em destaque na minha lista dos piores deste Festival do Rio.

Eichmann (idem), de Robert Young, UK, 2007, 100′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 0

Satanás

Paola trabalha num açougue, até receber a proposta de dois homens para ajudá-los a aplicar o golpe “Boa Noite, Cinderela”. Ernesto é padre, mas sofre com as tentações da carne e por isso se pune fisicamente. Elizeo é um ex-para-médico e ex-militar que agora trabalha como professor de inglês e briga com todos à sua volta, com exceção de sua aluna e a família dela. O trio passa por situações adversas e se envolve no massacre de Pozzetto.

Logo de início há uma cena que até impressiona: um padre é chamado às pressas para a igreja, onde está uma mulher com as roupas encharcadas de sangue e um facão na mão. Ela diz que não tinha o que dar de comer aos filhos, então os libertou.

“Satanás” é assim, um filme pesado onde desde o início se sabe que os personagens principais passarão por maus bocados. A narrativa transcorre com as vidas dos três protagonistas sendo mostradas em paralelo, no melhor estilo consagrado por Robert Altman. Eles até se encontram, mas poucas vezes. A história melhor desenvolvida é a de Paola, que é concluída cerca de 20 minutos antes do término do filme. E é justamente no final que está um dos grandes problemas de “Satanás”. Repentinamente tudo muda e o filme se transforma num mar de sangue. A mudança é tão brusca que pega o público de surpresa, pela violência e sua constante repetição. Mesmo no ambiente duro o qual os personagens estavam inseridos, nada insinuava algo neste sentido. Ao término do filme, antes dos créditos finais, surge um texto que justifica o ocorrido. O tema do filme na verdade era o massacre de Pozzetto. Surge então a pergunta: se o objetivo era este, por que contar tanta história que nada tem a ver com o assunto? Fica a inevitável sensação de que o espectador foi, durante um bom tempo, enrolado.

Sobre a tal mulher da cena de abertura, ela vai para a prisão logo em seguida. E protagoniza uma das cenas mais bizarras deste Festival do Rio - e olha que já surgiram várias, Shortbus que o diga -, em sua última aparição. Na verdade a própria personagem é dispensável, já que tem pouquíssima influência na trama como um todo. Sua presença e esta cena final são outros pontos negativos do filme.

Satanás (idem), de Andrés Baiz, Colômbia/México, 2007, 100′ (LEP)

Mostra Première Latina

Nota: 3,5

Nosso Candidato

Deixo o Festival do Rio um pouco de lado para tratar de outro assunto importante: a escolha do representante brasileiro ao próximo Oscar de melhor filme estrangeiro.

São 18 candidatos, onde apenas um será escolhido. A relação completa pode ser conferida aqui.
Fui surpreendido com a inclusão em cima da hora de Tropa de Elite, que utilizou uma tática muito comum nos Estados Unidos: estréia limitada, apenas para habilitar o filme para a premiação. Por aqui mesmo isto já ocorreu anos atrás, com Abril Despedaçado.

A entrada de Tropa de Elite muda inteiramente o panorama da disputa. Até então o favorito era O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, pela projeção que conquistou ao ser relacionado para a mostra competitiva do Festival de Berlim deste ano. Não o considero o melhor filme nacional do ano, mas o considerava o candidato com mais chances de indicação ao Oscar que o país poderia apresentar. Até agora.

Tropa de Elite tem a seu favor o fato de ser um baita filme - concordo inteiramente com a opinião da Erika, publicada aqui mesmo neste blog -, de ter distribuição assegurada nos Estados Unidos - “O Ano…” também tem, vale lembrar -, da repercussão internacional que o filme já está causando e, talvez o mais importante, de ter Harvey Weinstein por trás nos EUA.

Para quem não percebeu, trata-se do ex-chefe da Miramax e hoje dono da The Weinstein Company. O mesmo que se notabilizou pelas campanhas agressivas no Oscar, que renderam indicações e premiações a filmes como Shakespeare Apaixonado, Chicago e Cidade de Deus. Ter alguém como Weinstein a seu lado é um aliado muito importante na disputa por indicações e estatuetas douradas.

Porém ressalto que ainda estou em dúvida se Tropa de Elite é o melhor filme nacional do ano. E o que me faz ter esta dúvida é o excelente e pouco visto Batismo de Sangue.

Mas, independente de qual seja o melhor filme, creio que Tropa de Elite seja o melhor candidato. Pela sua qualidade, pelo marketing internacional e pelas condições de distribuição que possui nos Estados Unidos. Afinal de contas, não podemos nos esquecer, onde se decide quem é indicado ou ganha Oscar não é aqui e sim lá.

O espaço está aberto para que nossos leitores também dêem sua opinião sobre o assunto. Qual deveria ser o nosso candidato e por que? Para participar é só comentar.

Nascido e Criado

Santiago é um decorador de interiores de sucesso, mas também um dedicado pai de família. Sua esposa Milli e a filha Josefina são prioridade em sua vida. Quando uma tragédia desconstrói sua família, Santiago se isola nas montanhas geladas da Patagônia e arruma um trabalho braçal no pequeno aeroporto local. Mas a distância da cidade não elimina os fantasmas e dores do passado. Participou do Festival de Toronto 2006.

O filme tem uma proposta interessante e aborda o sofrimento da Santiago de modo sensível e nada maniqueísta. Mas a trama padece de falta de ritmo e o tédio do protagonista acaba se refletindo no espectador que, ao longo do filme, vai se cansando de tanto gelo e desolação. Mas o ritmo arrastado, embora seja cansativo, não é o maior problema do filme. O que realmente irrita um pouco em Nascido e Criado é que a história guarda para o final uma reviravolta que não é muito verossímil. A impressão que fica é a de que o roteirista estava disposto a surpreender a qualquer custo e resolveu fazer uma pegadinha com o espectador. Eu, particularmente, não “engoli” a tal surpresa.

Nascido e Criado (Nacido y criado), de Pablo Trapero, Arg/Ita, 2006. 100’ (LP)

Première Latina

Nota: 5,0

Ficha no Adoro Cinema

Bluff

O fotógrafo Nicolás chega mais cedo em casa e surpreende a namorada Margarita nos braços de Mallarino, magnata das telecomunicações e patrão de Nicolás. De uma vez só, Nicolás perde a mulher amada e o emprego. Margarita e Mallarino se casam e Nicolás, antes um profissional de sucesso, passa a viver de fotografar casamentos. Até o dia em que surge a oportunidade de se vingar de Mallarino e, de quebra, arrancar dele uma fortuna. Mas um crime atrapalha os planos de Nicolás.

Bluff, em inglês, significa blefe. No final das contas, um nome bem apropriado para esse filme picareta. Desde a abertura modernosa, já dá para perceber que é mais um filme pretensioso que não chega a lugar nenhum. Os personagens são rasos, as situações maniqueístas e os diálogos não passam de um apanhado de lugares comuns. Tudo isso com uma edição e trilha sonora que deixam claro que o diretor é mais um desses caras pseudo-descolados que acham que são Tarantino.

Bluff (idem), de Felipe Martínez, Colômbia, 2007. 103’ (LEP)

Première Latina

Nota: 1,0

Bunny Chow

Kags, Dave e Joey são três comediantes de stand-up comedy em Joanesburgo. Kags e Joey são mais conhecidos, e por isso consideram Dave um simples aspirante e adoram criticar seu material e sua timidez. Os três vislumbram em OppiKoppi, o maior festival de rock da África do Sul, uma boa oportunidade para mostrar seus talentos. Para o mulherengo Kags, a viagem também representa a expectativa de muito sexo. Junta-se à trupe o estranho Cope, e os quatro pegam a estrada.

Outro filme pretensioso, que tenta analisar a imaturidade e medo de compromisso dos homens e só consegue mostrá-los como um bando de idiotas cheios de testosterona. Os personagens principais agem como garotos bobos, embora sejam trintões, e não são comprometidos nem mesmo com seu trabalho como comediantes. A viagem é só uma desculpa para acontecer algo no filme, porque ninguém parece muito interessado no tal festival. E o maior exemplo disso é o fato de que, chegando lá, eles parecem empenhados apenas em correr atrás das mulheres. Tá certo. Alguns bons filmes - como Alta Fidelidade e Um Grande Garoto - já mostraram esse fenômeno dos tempos modernos, que é o homem com síndrome de Peter Pan. Mas a história tampouco se detém na psicologia dos personagens. Podemos dizer que até o roteiro de American Pie tem mais conteúdo do que esse apanhado de piadas chulas e machistas que é Bunny Chow (e o pior é que os homens presentes na sala de exibição estavam rindo delas). Como se isso não fosse irritante o suficiente, o filme ainda é pobre tecnicamente. Fotografado toscamente em P&B, sem que haja nenhuma razão para isso.

Mais um que tem lugar garantido na lista dos piores deste Festival.

Bunny Chow (Bunny Chow - Know Thyself), de John Barker, África do Sul, 2006. 95’ (LEP)

Mostra Expectativa

Nota: 0

24 de set de 2007

Confissões de Lagerfeld

O dia-a-dia do estilista Karl Lagerfeld, incluindo seu trabalho como fotógrafo e hobbies, como sua imensa coleção de livros.

Quando se assiste a um documentário o mínimo que se espera é que ele revele algo sobre seu tema, independente do formato que o diretor opte por realizá-lo. Pois “Confissões de Lagerfeld” consegue uma proeza: ele praticamente nada fala sobre seu tema. Ou melhor, nada fala de importante ou revelador, o que é até contraditório com o confissões do título. Sempre que algum tema mais polêmico é abordado Lagerfeld o corta, dizendo que é algo íntimo e que não quer falar ou se estender sobre o assunto. Tudo bem, direito dele e do diretor. Mas nem mesmo sobre o trabalho de Lagerfeld o filme se aprofunda. Sabemos que ele foi o responsável pela reconstrução da Chanel, mas como fez isso? O máximo que aparece é seu 1º desfile de moda pela empresa, e só. Vemos Lagerfeld desenhando, tirando fotos, trabalhando um pouco, mas nada se aprofunda. Nem mesmo o porquê dele estar fazendo isto é dito, o que passa a sensação de que é apenas para se mostrar para a câmera.

Com isso o filme é um mero painel sobre o glamour e o luxo existentes no mundo da moda, já que estes sempre cercam Lagerfeld onde quer que ele vá. Nada muito diferente do que já é mostrado em programas de TV ou revistas sobre o assunto. Irrelevante.

Confissões de Lagerfeld (Lagerfeld Confidential), de Rodolphe Marconi, França, 2007, 88′ (LEP)

Mostra Retratos Internacionais

Nota: 2,0

Elvis Pelvis

Elvis é um garoto que acaba de completar 10 anos. Seu pai, fã do cantor, lhe dá de presente uma roupa típica de Presley. O garoto não gosta do presente, mas é obrigado a usá-lo. Ele na verdade é fã de Jimi Hendrix, que influenciará sua vida.

A idéia do contraste Elvis Presley/Jimi Hendrix é boa, pena que pouco explorada. A questão em torno do uso da roupa dada de presente é apenas mais um conflito existente entre pai e filho, que é realmente o assunto principal do filme. O diretor Kevin Aduaka utiliza uma fotografia granulada, escura, mesclando entre o colorido e o preto e branco, com muita câmera na mão e que às vezes fica desfocada, lembrando um pouco os filmes do movimento Dogma. Nada contra, e este estilo não chega a incomodar. O problema do filme é sua 2ª metade, quando a figura de Hendrix ganha força. A história cai drasticamente de qualidade e se torna bem arrastada, seguindo as dúvidas do protagonista.

Ao término do filme alguém da sala gritou “até que enfim!”. Não é para tanto, mas decepciona.

Elvis Pelvis (idem), de Kevin Aduaka, UK, 2007, 95′ (LEP)

Mostra Retrospectiva Agnes B.

Nota: 4,0

Um Jogo de Vida ou Morte

Andrew Wyke é um romancista de sucesso, cuja esposa o abandonou recentemente. Ele recebe a visita de Milo Tindle, o amante dela, que deseja que Andrew conceda o divórcio. É o início de um duelo entre os dois, envolvendo astúcia e inteligência.

O filme original, Jogo Mortal - ou Trama Diabólica, como foi lançado em VHS/DVD - é brilhante. Surpreendente, inteligente, com reviravoltas e atuações que cativam e não permitem que o espectador desgrude o olhar por um segundo sequer. Por causa disto tinha uma grande expectativa com este filme. E, como às vezes acontece, grandes expectativas geram grandes decepções, mesmo quando o filme não é ruim - ele apenas não é tão bom quanto se esperava. Foi exatamente o que aconteceu aqui.

Trata-se de uma recriação do filme original, já que, apesar de boa parte da história ser mantida, muito foi modificado. A ambientação é high tech, saindo os jogos e brinquedos do original e entrando câmeras de vigilância, decoração moderna e parafernálias eletrônicas. Uma boa mudança, já que atualiza a história e dá um visual bonito e interessante à mansão de Andrew Wyke.

Outra mudança visível é no próprio Andrew Wyke. No original Laurence Olivier o interpretava com uma certa soberba, de alguém muito inteligente que sabe disto e subestima todos à sua volta, brincando de criar jogos para humilhá-los. O Wyke de Michael Caine também tem esta característica, mas bem mais amena. A vingança e o ciúme são os sentimentos mais nítidos, que movem o personagem. Trata-se de uma mudança importante, que torna o duelo existente entre Wyke e Tindle bem mais duro e ofensivo nesta refilmagem.

A grande decepção foi com o terço final da história, inteiramente modificado em relação ao original e com muito menos força. Além disto a trama não fecha de forma tão perfeita, existindo pontas soltas em detalhes, como a aparição das roupas de Milo Tindle.

Mas, apesar da inevitável comparação de quem assistiu a ambos os filmes, é preciso reconhecer: Um Jogo de Vida ou Morte é um bom filme. A direção de Kenneth Branagh é cuidadosa, buscando ângulos diferentes e que exploram a ambientação da mansão Wyke. Michael Caine está bem em cena, enquanto que Jude Law às vezes tem recaídas de sua fase mais afetada, em início de carreira. Só não chega aos pés do original.

Um Jogo de Vida ou Morte (Sleuth), de Kenneth Branagh, EUA, 2007, 86′ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 6,5

Ficha no Adoro Cinema

Que Bob é Esse?

Sexta-feira, credencial em punho, resolvi garantir logo meu ingresso para o disputado I’m Not There, filme no qual Bob Dylan é interpretado por seis atores diferentes. Cate Blanchett encarna uma das facetas do ídolo, o que me lembrou o mico da primeira vez em que ouvi falar do filme.

Um amigo chegou para mim e anunciou “você sabia que a Cate Blanchett vai fazer o papel do Bob Dylan num filme?”. Ao que eu arregalei os olhos e perguntei, muito espantada, como aquilo seria possível. Meu amigo, blasé, perguntou qual era o problema. E eu achando aquilo o absurdo dos absurdos. E ele não entendendo o que era tão bizarro assim na notícia, afinal de contas, mulheres em papéis masculinos (e vice-versa) não eram nada de tão inédito assim.

Depois de algum tempo, percebi meu erro: por algum motivo inexplicável, meu amigo falou em Bob Dylan e eu pensei em… Bob Marley!

As Bonecas Safadas de Dasepo

Bem-vindo ao Colégio Museulmo (Sem Uso), onde impera a diversidade religiosa e a total liberdade sexual. Lá, tudo é permitido: usar drogas, transar com os professores, etc. Dentre os alunos, os típicos papéis são levados ao extremo: o perdedor da turma não é simplesmente um garoto gordinho ou de óculos, mas sim um ciclope. A menina pobre não sofre apenas por não ter vestidos novos, ela mora num barraco sem banheiro e se prostitui para sustentar a família. Baseado em Dasepo, uma história em quadrinhos criada para a Internet.

Certamente, um dos filmes mais criativos desse Festival. Desde a empolgante abertura, em clima de High School Musical para maiores, o filme já deixa claro que pretende demolir todos os códigos de filmes para adolescentes. A devassidão que há por trás do mundo cor-de-rosa dos jovens, mostrada com muita irreverência. A primeira seqüência é hilária: um professor substituto informa que está ali porque o professor usual da turma está com uma doença venérea. Ele sugere à meiga Florzinha que procure um médico. Ela reage indignada, mas pede para sair mais cedo. Ao que todos os alunos, incluindo os garotos, começam a sair de fininho, restando apenas um garoto ao fundo da sala. Trata-se de Ciclope, o único virgem da escola. Também não é para menos: o moleque tem um único e enorme olho no meio da testa. Esse é o tom do longa. Destaque para a hilária seqüência que mostra a garoto rico visitando o barraco da menina pobre. Outro detalhe divertidíssimo são os números musicais com letra animada na tela, como se aquilo fosse um karaokê.

O único problema é que o filme tem uma barriga em sua segunda metade, quando abandona um pouco o universo adolescente para inserir uma trama de ficção científica envolvendo um dragão mitológico. Talvez aquilo seja engraçado para os coreanos e tenha muito a ver com suas tradições culturais, mas para nós não faz muito sentido e desvia o foco da história. Ainda mais porque existem outras subtramas mais interessantes do que aquela, como, por exemplo, a do mafioso com uma vida secreta. O longa tem quase duas horas, o que é muito para esse estilo. Se tivesse passado por uma edição mais rigorosa, ficaria excelente.

Em tempo: o título e a inclusão na Mostra Midnight Movies sugerem um filme mais barra-pesada do que ele realmente é. Não se assustem, é mais deboche do que perversão.

As Bonecas Safadas de Dasepo (Dasepo Sonyeo), de Lee Jae-Yong (Coréia do Sul, 2006). 112’ (LEP)

Mostra Midnight Movies

Nota: 7,0

23 de set de 2007

Ainda Orangotangos

Um passeio pelas ruas de Porto Alegre, que começa com um casal de imigrantes chineses dentro de um vagão de metrô.

É preciso, antes de tudo, parabenizar o diretor Gustavo Spolidoro e sua equipe. Realizar um filme com um único plano-sequência não é novidade na história do cinema - vale lembrar de Arca Russa, exibido há poucos anos -, mas a dificuldade na realização de um projeto deste tipo o torna bem raro. Além do próprio roteiro e dos atores, é preciso ter um cuidado especial com o lado técnico e também com a coordenação das próprias filmagens. No caso deste filme isto é ainda mais relevante, já que a história se passa também nas ruas, em meio ao público. Basta uma única pessoa interferir que tudo vai por água abaixo. Ou seja, organização e planejamento neste filme são até mais importantes do que sua própria história. E a preocupação com estes itens é nítida, pelo modo como a câmera acompanha os personagens e, em determinados momentos, focaliza um deles para que o ambiente em torno possa ser preparado para o que vem a seguir.

O filme não tem bem uma história, mas personagens. Personagens que entram e saem da trama e protagonizam diversas situações, algumas bizarras. Há trechos divertidíssimos, como o encontro do chinês com o Papai Noel e tudo o que acontece dentro do ônibus. Vale destacar também a sequência da mulher no apartamento, criativa e muito bem resolvida em seu desfecho, e a final, na festa de 15 anos, pelo velhinho ao fundo da cena. Muito bom filme, uma bela surpresa deste Festival do Rio.

Ainda Orangotangos (idem), de Gustavo Spolidoro, Brasil, 2007, 82′

Mostra Première Brasil - Novos Rumos

Nota: 8,0

Ficha no Adoro Cinema

Married Life

Harry Allen é um homem de meia idade, casado com Pat e que mantém um caso com Kay, uma jovem mulher que perdeu o marido na 2ª Guerra Mundial. Harry apresenta Kay a seu melhor amigo, Richard, um solteirão convicto que tem fama de mulherengo. Richard deseja Kay e tenta se aproximar dela de qualquer jeito, enquanto que Harry planeja um meio de matar sua esposa, para que possa novamente se casar.

Uma tremenda bomba. Se há algo que se possa considerar é a atuação de Chris Cooper como Harry Allen, que tem alguns bons momentos. O filme todo é clichê, desde a idéia do triângulo amoroso da descrição acima até a questão da separação ou não do casal Allen. E o pior, um clichê mal executado. A narração em off de Pierce Brosnan é dispensável, a trilha sonora tenta criar de forma artificial um clima de suspense e as atuações são todas apagadas, com exceção de Cooper. Para completar trata-se de um filme arrastado, que estende mais do que devia suas subtramas. Deu sono.

Married Life (idem), de Ira Sachs, EUA, 2007, 90′ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 1,0

Goodbye, Bafana

A história começa no final dos anos sessenta, quando James Gregory, um guarda penitenciário branco sul-africano, recebe a missão de espionar Nelson Mandela. Criado numa fazenda na mesma região do líder sul-africano, Gregory fala bem o dialeto Xhosa e é a pessoa indicada para ouvir e repassar informações trocadas entre Mandela e seus visitantes. Mas a convivência entre os dois acaba por criar laços de respeito mútuo e amizade. Seleção oficial do Festival de Berlim 2007.

Outro filme que, mesmo considerando seu estilo convencional, não tem nada a dizer. O longa se limita a mostrar a convivência do tal carcereiro branco com Nelson Mandela e a inexplicada tomada de consciência dele quanto à questão do apartheid, sem que haja nenhuma conversa relevante entre os dois que tenha ocasionado tal mudança de postura.

Além de ser um filme incrivelmente chato, Goodbye Bafana também é cheio de falhas técnicas. Os personagens envelhecem mais de vinte anos ao longo da história sem que haja nenhuma mudança significativa em termos de caracterização. Um bigode, um penteado diferente ou cabelos brancos que parecem algodão. Um horror. Também é mais um daqueles filmes com trilha sonora irritante, ou seja, repleto de sons pseudo-edificantes. O elenco apático também contribui para colocar o pobre espectador para roncar. Dennis Haysbert é bom, mas não tem muito o que fazer no filme. Joseph Fiennes está longe de ter o magnetismo e talento do irmão. E Diane Kruger… Bom, essa daí é simplesmente uma das piores atrizes do momento. Ah, e a explicação para o título também é de doer.

A impressionante trajetória de Mandela, preso político por 27 anos e posteriormente presidente da república, certamente merece ser mostrada no cinema. Mas Goodbye Bafana não é esse filme, mesmo porque o roteiro é focado na figura de James Gregory e não na do líder sul-africano. E, como não há nada de relevante na biografia de Gregory, a grande pergunta é: por quê? Imaginem se a moda pega e começam a fazer filmes sobre as vidinhas tediosas de qualquer um que tenha convivido com alguém famoso.

Goodbye Bafana (idem), de Bille August, Fra/Ale/Bel/Ita/ Africa do Sul, 2007. 117’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 2,5

Ficha no Adoro Cinema

Homens Nus

Tibor é um escritor cinqüentão em crise conjugal e profissional, casado com uma atriz cuja carreira também já teve dias melhores. Sentindo-se solitário durante uma das muitas viagens da mulher, envolve-se num caso tumultuado com um belo rapaz de apenas 19 anos. Transtornado pela paixão, Tibor não se dá conta do que a perigosa aventura pode causar em sua vida. Exibido na Mostra Panorama do Festival de Berlim 2007.

Filme pra lá de convencional, em cima de um argumento manjadíssimo. Não há nada mais surrado do que o tema do homem mais velho que redescobre o prazer de viver através da paixão por uma pessoa mais jovem. E a tentativa ser “moderno” ao criar uma versão homossexual da mesma história de sempre tampouco é novidade. O mais curioso é que dentro do próprio filme há uma crítica velada à sua falta de criatividade. O protagonista tenta vender a seu editor uma história sobre um homem em crise de meia-idade que se apaixona por uma jovem prostituta. Ao que o editor argumenta que não há nada de original na história e que o autor deveria apimentá-la transformando a jovem num garoto. Exatamente o que vemos na tela. Não se pode negar que os húngaros pelos menos têm senso de humor.

Homens Nus (Férfiakt), de Károly Esztergályos, Hungria, 2006. 94’ (LEP)

Mostra Mundo Gay

Nota: 3,0

Hallam Foe

Hallam Foe é um rapaz rico e introspectivo que passa horas em sua casa na árvore, espionando os outros - em especial o pai e sua nova esposa - de binóculo. Hallam vive com a paranóia de que a madrasta assassinou sua mãe, o que não o impede de desejá-la. Atormentado com a situação, foge para Edimburgo e se emprega num hotel como lavador de pratos. Sua nova obsessão passa a ser Kate, uma garota extremamente parecida com sua mãe.

Hallam Foe é um filme fofo. História sensível, roteiro bem cuidado e excelente interpretação do elenco, em especial o sempre ótimo Jamie Bell (o eterno Billy Elliot, atualmente com 21 anos) que, com sua carinha de cachorrinho abandonado, ganha a simpatia do espectador logo na primeira cena. E olha que seu personagem não chega a ser um doce de pessoa: vaidoso, desajustado e encrenqueiro, mas também cativante em sua necessidade desesperada de afeição. Hallam não se sente amado pela família e procura correspondência para seus sentimentos do modo que for possível. Kate a princípio simboliza a mãe; depois, a mulher amada. E os homens não são, muitas vezes, garotos perdidos buscando uma mãe?

Hallam Foe (idem), de David MacKenzie, UK, 2007. 96’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 7,5

Ficha no Adoro Cinema

A Verídica Verdade Verdadeira sobre Adolf Hitler

Alemanha, dezembro de 1944. Berlim está em ruínas e a guerra, praticamente perdida. Hitler mostra sinais de cansaço e depressão. Mas Goebbels, ministro da propaganda, acredita que é preciso um discurso grandioso do Führer para levantar o moral do povo alemão. Nesse momento, a única pessoa que poderia ajudá-lo é o antigo professor de teatro de Hitler. Um judeu. Goebbels decide resgatá-lo do campo de concentração onde se encontra e oferece conforto a ele e sua família para que prepare Hitler para o discurso.

O título prepara o espectador para uma comédia rasgada, o que não acontece. E não adianta culpar os tradutores porque, neste caso, a tradução foi literal (omitindo-se apenas o “Meu Führer” antes do longo subtítulo). A história é interessante sim, mas seriamente prejudicada pela ausência de humor. Porque o filme só faria sentido como uma comédia e, do jeito que foi realizado, acabou ficando no meio do caminho. Não é engraçado - no máximo irônico - e tampouco pode ser levado a sério. Mesmo porque, como drama, inúmeras seqüências se tornam inverossímeis. Decepcionante, ainda mais se levarmos em conta o usual alto nível do cinema alemão.

A Verídica Verdade Verdadeira sobre Adolf Hitler (Mein Führer - Die wirklich wahrste Wahrheit über Adolf Hitler), de Dani Levy, ALE, 2007. 89’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 5,5

A Culpa é do Fidel!

O filme é ambientado em 1970. Anna é uma menina parisiense de nove anos, que tem uma vida confortável e tranqüila. Até que seus pais viajam ao Chile, logo após a eleição de Salvador Allende, e retornam empolgados com idéias socialistas. Subitamente, a vida familiar muda por completo: reuniões políticas, mudança para um apartamento menor, visitas inesperadas de amigos estranhos, enfim, uma nova realidade que Anna não compreende e não deseja vivenciar.

Sabe a Mafalda, aquela garotinha dos quadrinhos que desespera os pais com suas perguntas indiscretas sobre política? Pois a gracinha Nina Kervel, com sua expressão enfezada, é a reprodução em carne e osso da garotinha argentina. E grande parte do mérito do divertido A Culpa é do Fidel pode ser creditado a essa pequena grande atriz. Mas não é só. A trama inteligente faz pensar sobre a viabilidade das utopias na vida diária. Através da mentalidade direta e franca de uma criança, que expõe o que pensa sem meias-palavras, o irônico roteiro evidencia o quanto as convicções e decisões dos chamados adultos podem ser motivadas por impulsos infantis. Os pais de Anna não são socialistas de coração, apenas estão buscando um sentido para suas existências e tentam se redimir de omissões passadas. E Anna não quer saber de palavras de ordem ou filosofia, ela só sabe que tinha uma boa vida que, de repente, lhe foi arrancada simplesmente porque seu pai teve uma tardia crise de consciência e mudou a vida de toda a família sem que ela ou seu irmão pudessem opinar. Divertido e filosófico.

A Culpa é do Fidel! (La Faute à Fidel), de Julie Gavras, França, 2006. 99’ (LEP)

Mostra Expectativa

Nota: 7,0

Ficha no Adoro Cinema

22 de set de 2007

For Your Consideration

“Home for Purim”, um pequeno longa-metragem independente com atores desconhecidos ou em decadência, está em filmagens. Um dia surge na internet uma nota de que uma das atrizes do elenco está cotada para o próximo Oscar. A partir de então a mídia descobre o filme, que passa a figurar na lista de candidatos ao Oscar em diversas categorias.

A idéia é bacana, até porque esta trajetória já foi vista diversas vezes. Um filme desconhecido, que poucos ouviram falar, mas que nos meses anteriores às premiações ganha volume e acaba surpreendendo, seja com indicações ou até com estatuetas. Poderia ser um filme sarcástico, no sentido de criticar ou até mostrar de forma ácida e realista como todo este processo ocorre e o quanto há de interesse da indústria em detrimento da arte. Mas “For Your Consideration” prefere o caminho mais fácil, o das piadas rasteiras e tolas. Tipo a produtora que coloca o dinheiro mas nada sabe sobre o filme, os roteiristas que criam caso pelo roteiro ter sido jogado ao chão pelo diretor ou a atriz que chama o funcionário dos sets por outro nome, apesar de encontrá-lo todo dia. Clichês, meros clichês. Se fosse apenas isto ainda dava para relevar, mas há também diversas piadas exageradas, onde até mesmo no louco mundo de Hollywood é difícil de acreditar. Ou será que alguém acredita, ou acha graça, de um assessor de imprensa que desconheça a internet e a confunda com “interweb”? O nível da “comédia” é por aí.

For Your Consideration, de Christopher Guest, EUA, 2006, 86′ (LEP)

Mostra Expectativa

Nota: 3,5

Fabricando Discórdia

A trajetória de Michael Moore, passando por suas conquistas e pelas polêmicas em torno de seus filmes e atitudes.

Por mais que se critique Michael Moore, é inegável sua importância para a popularização dos documentários na última década. E um dos méritos de Fabricando Discórdia é não fechar os olhos para isto, buscando mostrar os contras do diretor mas também ressaltar suas conquistas. Isto já o torna diferente dos diversos filmes e programas lançados com a finalidade única de denegrir Moore, devido às posições que assume. O filme critica, mas não é fechado exclusivamente nisto.

Porém há um lado controverso nele. A diretora Debbie Melnyk é fã de Moore e não esconde isto. À medida que o filme transcorre e ela não consegue a entrevista com o diretor o próprio filme ganha um certo tom de rancor, como se tivesse sido desprezado. E isto surge em comentários até mesmo bobos, como “ele não gosta dos canadenses”, ou em situações em que se coloca de vítima quando ao mesmo tempo se esquece do que fez, como no caso da expulsão pelos crachás falsos. Não é algo que prejudique gravemente o filme, mas incomoda.

No mais é um bom relato da carreira de Michael Moore, desde seu início ainda como jornalista até a explosão com Fahrenheit 11 de Setembro e sua participação nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2004, dando mais atenção às polêmicas em que se envolveu. Destaque também para o debate em torno de uma questão que já é bem conhecida, a da edição dada por Moore em seus filmes. O diretor afirma que não importa a ordem cronológica dos fatos, desde que eles sejam verídicos, e que busca na edição dar um tom humorístico para mesclar o documentário com o entretenimento, de forma que tenha mais pessoas interessadas em assistir seus filmes. Alguns de seus detratores o acusam de manipulação, o que Moore até concorda, mas no sentido de apenas contar a sua verdade, deixando de lado o que atrapalhe a história que pretende contar. Acompanhando a questão, me veio em mente outra pergunta: existe um limite para documentários, em relação a formato?

A meu ver, não. A fórmula usada por Michael Moore é tão válida quanto a de documentários extremamente tradicionais mas, pela veemência com que prega suas idéias, Moore sempre é polêmico em seus trabalhos. O que gera tanta discussão e filmes como este Fabricando Discórdia.

Fabricando Discórdia (Manufacturing Dissent), de Rick Caine e Debbie Melnyk, Canadá, 2007, 97′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 6,5

Ficha no Adoro Cinema

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