31 de out de 2007

Compreendendo Woody Allen

O documentário “Woody Allen in Concert - Wild Man Blues” acompanha a turnê de Woody Allen e sua banda por diversas cidades européias, em 1996. Além de várias tiradas inspiradas e a possibilidade de acompanhar um pouco de como é Allen em seu cotidiano, o filme traz uma declaração do próprio Allen que explica bastante sobre sua filmografia.

Em determinado momento um jornalista pergunta ao diretor o porquê de seus filmes fazerem tanto sucesso na Europa e tão pouco sucesso nos Estados Unidos. Lembrem-se, estamos em 1996, seu filme mais recente é Poderosa Afrodite. É quando Allen responde da seguinte forma:

“Spielberg e Scorsese dizem que fazem hoje os filmes que amavam assistir quando crianças. Eu também sou assim. Só que na época os filmes que assistia eram todos estrangeiros.”

A era Craig

Leia: Daniel Craig em mais 4 filmes como James Bond

Não estou entre os que apóiam a escolha de Daniel Craig como James Bond. Nem tanto pelo tipo físico, mas pela ausência de carisma. O personagem exige uma certa dose de charme, de classe, algo que sobrava em Sean Connery, Roger Moore e, vá lá, Pierce Brosnan. Para piorar Craig teve seu James Bond brutalizado, de forma que qualquer brucutu musculoso pudesse interpretá-lo. O que piorou sua situação, já que Craig - que é bom ator, vide Amor para Sempre - teve pouco espaço para realmente atuar. Mais parecia um robô correndo de um lado para o outro, seguindo as ordens dos responsáveis pelas cenas de ação. Isso qualquer herói de filme de ação faz, de James Bond se espera mais.

Porém 007 - Cassino Royale foi um baita sucesso e, com isso, era mais do que natural que Craig seguisse em frente com o personagem. Caso complete os 4 filmes do recente acordo ele já ultrapassará Pierce Brosnan, com 5 filmes na série, ficando apenas atrás de Sean Connery (6 filmes) e Roger Moore (7 filmes).

29 de out de 2007

Frase do Dia

“Milagre que ninguém viu o Vaticano não aceita.”

(João, personagem de Dudu Azevedo em Podecrer, desconfiando das histórias de um amigo sobre as garotas com quem namorou)

Maratona no Feriadão

Sexta-feira é dia de finados, mas também de Maratona Odeon. O evento esse mês traz a pré-estréia do novo longa de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, além de dois programas do festival Curta Cinema (um deles inclui o genial Tarantino’s Mind). Confiram abaixo a programação completa e o link para os comentários sobre Jogo de Cena, já analisado aqui no blog por ocasião de sua première no Festival do Rio:

23h - abertura do cinema
23h20 - Jogo de Cena (pré-estréia)
2h15 - Curta Cinema (Programa Pílulas Pop - 100 min): Perto de Qualquer Lugar, 4=1, Antes que Seja Tarde, Entrada para o Sucesso, Tarantino’s Mind e filme-surpresa
4h40 - Curta Cinema (Programa Identidades Sexuais - 76min): Seu Próprio Caminho, Tá, Bárbara, O Fim de Semana, O Cineasta Pornô, Frank Vai para Hollywood e Coração de Borracha

1408


Stephen King é um excelente contador de histórias. Seu grande mérito é não depender de cenários lúgubres ou circunstâncias extraordinárias para criar uma boa e envolvente história de horror. E talvez suas tramas sejam tão arrepiantes justamente por serem ambientadas em cenários urbanos e cotidianos. Mas King também é um dos escritores mais injustiçados pela sétima arte. Apesar da absurda quantidade de adaptações de seus contos e romances, são poucas as que fazem jus ao original. Ironicamente, as melhores transposições vieram daqueles que não têm nada a ver com horror, como foi o caso de Um Sonho de Liberdade, Conta Comigo e À Espera de um Milagre.

1408 é adaptado de um conto de mesmo título que, por sua vez, foi inspirado numa reportagem sobre um quarto mal-assombrado num hotel da Califórnia. Nunca li esse conto específico, mas o enredo do filme guarda diversas semelhanças com uma das obras mais famosas de Stephen King, O Iluminado. Mais uma vez, o horror em sua forma absoluta emanando de um local prosaico, luxuoso até. Só que, em vez do imenso Hotel Overlook, agora tudo se concentra num quarto. Conhecendo o humor peculiar de Stephen King, isso pode até ser algum tipo de piada - hotel inteiro para um romance, apenas um quarto para um conto.

Mike Enslin escreve sobre lugares mal-assombrados, embora ele próprio não acredite em fantasmas. Debochado a ponto de dar cotações em caveirinhas segundo o grau de “assustabilidade” de um local, Mike nunca encontrou evidências reais em nenhum dos locais visitados. Até o dia em que decide ir ao Dolphin Hotel e passar uma noite no supostamente amaldiçoado quarto 1408. O gerente do estabelecimento interditou o quarto há anos e faz de tudo para fazê-lo mudar de idéia, mas Mike está ciente de seus direitos de consumidor e exige ocupar o quarto.

Seguindo um tema recorrente do autor, a força maléfica que comanda o local é como um organismo vivo. O interessante paradoxo da história é o fato do 1408 não ser nocivo por algo feito por humanos - um assassinato, uma morte trágica -, como ocorre na maioria dos longas de terror. Ao contrário, é o Mal, em sua essência, que transforma as pessoas. Esse aspecto é muito interessante, ao menos para quem aprecia histórias de terror e está cansado de menininhas orientais de longos cabelos molhados. Todo o clima no hotel leva a um permanente estado de tensão e antecipação da próxima cena, com destaque para o ótimo embate entre Mike e o gerente do hotel. O filme aposta naquele tipo de suspense que vem do fato do espectador já ter uma idéia do que vai acontecer (alguma dúvida de que Mike vai comer o pão que o diabo amassou dentro do tal 1408?), enquanto o protagonista permanece na santa ignorância. Pior ainda, no descrédito.

O maior acerto de 1408 é ter em cena o tempo inteiro o eficiente John Cusack. Cusack é daqueles atores que conferem credibilidade a um filme, com aquele jeito familiar e largadão que parece o seu melhor amigo dizendo “ei, cara, sou eu quem está contando essa história”. E você, espectador, acredita nele.

Até certa altura, descontados alguns cacoetes desnecessários do gênero, o filme se desenvolve muito bem. A maior decepção ocorre no momento em que o roteiro cai num dos truques mais preguiçosos sempre que um autor não sabe como explicar o inexplicável. Fiquei furiosa. Mas aí olhei para o relógio e percebi que ainda faltava um bocado de filme. Ufa! Aquilo que estava ocorrendo não era conclusivo. O que vem depois dá uma recuperada e pode até ser engenhoso, mas a essa altura já estava instalada a sensação de interrupção no meu envolvimento com a história. Acabada a projeção, a impressão que fica é a de que 1408 é uma história esticada além do necessário. O que faz sentido se considerarmos que o roteiro foi escrito tendo um pequeno conto como base.

O filme estréia nesta sexta (bem apropriado estrear no dia dos mortos, vocês não acham?).

Ficha de 1408 no Adoro Cinema

27 de out de 2007

Justiça a Qualquer Preço

Ando sem paciência com filmes que seguem à risca a fórmula de um gênero. Tudo é tão repetitivo, tão remetente a outros filmes - quase sempre melhores -, que a ausência de qualquer inspiração, qualquer tentativa de fazer algo novo, me incomoda. É o que acontece com Justiça a Qualquer Preço.

Antes mesmo dos créditos iniciais surgirem já se tem uma boa noção do que está por vir: muitos truques de câmera, muita ambientação escura, muito som alto para fabricar sustos e um tema pesado, para dar justificativa a tudo isso. Quem tem alguma bagagem cinematográfica não consegue evitar a associação com O Silêncio dos Inocentes, Beijos que Matam e até mesmo Refém, pela semelhança de estilo e certas cenas. Com bem menos qualidade, claro.

A história também é pouco convincente. Richard Gere interpreta um agente responsável por acompanhar ex-presidiários que foram condenados por crimes sexuais. Prestes a deixar o cargo, ele será substituído pela personagem de Claire Danes, que o acompanha em seus últimos dias de trabalho. Para alguém que se candidatou ao cargo o mínimo que se pode esperar é que tenha sangue frio para encarar as situações que surgem nas investigações. É claro que certas barbaridades afetam até o mais experiente dos agentes, mas o comportamento da personagem de Danes em certos momentos é inaceitável para alguém em sua função. Por mais que o roteiro quisesse dar a entender que ela era inexperiente no assunto, isto deve ser tratado de forma que a própria personagem não se torne incoerente. E é exatamente o que acontece.

Junte-se a isso um final daqueles saídos da cartola, típico de roteirista com preguiça para elaborar um desfecho mais convincente, e temos um suspense fraco, que não intriga e muito clichê. Descartável.

Ficha de Justiça a Qualquer Preço no Adoro Cinema

Billy Wilder

Quando o diretor Fernando Trueba subiu no palco da cerimônia do Oscar de 1994, para receber a estatueta de melhor filme estrangeiro por “Sedução”, disse a seguinte frase:

“Não acredito em Deus, mas acredito em Billy Wilder.”

Tratava-se de uma reverência a um dos maiores diretores da história. Poucos fizeram tantas pérolas quanto Billy Wilder: Quando Mais Quente Melhor, Crepúsculo dos Deuses, A Montanha dos Sete Abutres, Irma La Douce, O Pecado Mora ao Lado, Se Meu Apartamento Falasse, Testemunha de Acusação, Pacto de Sangue, Farrapo Humano… Em meio a tantos filmes consagrados um de seus trabalhos menores costuma ser esquecido: A Primeira Página. Mas não se enganem, é menor apenas por ser menos conhecido, pois segue o padrão Wilder de qualidade.

Wilder, além de grande diretor, era também um grande roteirista. Conseguia captar como ninguém as nuances de sua época, de forma a trabalhá-las na tela. Em A Primeira Página os temas são a falta de ética no jornalismo, através de um excepcional Walter Matthau, e a predileção ao trabalho em detrimento da vida pessoal, personificado pelo casal Jack Lemmon e Susan Sarandon. Dois temas atualíssimos e que ganham um charme extra por serem situados em uma época não tão corrida, na qual tudo era mais ingênuo e mais sujeito à malandragem. Época perfeita para que Matthau, interpretando Walter Burns, destile veneno e abuse das trapaças para atingir seus objetivos, passando por cima de todos à sua volta.

A Primeira Página é comédia à moda antiga: inteligente, sarcástica, sem qualquer apelação e muito divertida. Algo raro nos dias atuais, especialmente vindo de Hollywood.

Ficha de A Primeira Página no Adoro Cinema

Grandes Cenas


Scarlett O’Hara, depois de muito esnobar Rhett Butler, entende que o ama. Mas é tarde demais. Ela corre atrás dele e pergunta o que vai ser dela, se ele a deixar. Butler - ou melhor, Clark Gable - dispara o petardo: “Francamente, minha querida, eu não ligo a mínima”. Osgood, milionário mulherengo, não mede esforços para fazer de Daphne sua enésima esposa. Mas Daphne é Jerry que, após muitas trapalhadas, arranca o disfarce e mostra ao insistente conquistador porque não pode se casar com ele. Sereno, Osgood sentencia: “Ninguém é perfeito”. Rick e Ilsa vão se separar mais uma vez e provavelmente nunca voltarão a se ver. Na neblina do aeroporto, ele tenta convencê-la de que o amor deles não tem futuro com a marcante: “Se você não entrar naquele avião, se arrependerá. Talvez não hoje, nem amanhã, mas logo e pelo resto da sua vida.”

As cenas citadas acima são, respectivamente, de … E o Vento Levou, Quanto Mais Quente Melhor e Casablanca. Qual a correlação entre elas? São cenas inesquecíveis, que já têm lugar cativo no imaginário coletivo e há muito extrapolaram os limites do filme de origem. A famosa seqüência de Gene Kelly sapateando sob a chuva, embora seja uma das mais empolgantes de todos os tempos, nem faz lá muita diferença para a trama de Cantando na Chuva. Mas é adorada por pessoas que nunca viram o filme e não têm a mínima idéia de seu enredo. Que, diga-se de passagem, é uma verdadeira aula sobre a história da sétima arte, já que detalha todo o processo da transição do cinema mudo para o falado.

O cinema atual também produz todos os dias seqüências memoráveis, embora seja necessário o crivo do tempo para determinar o que vai entrar para a posteridade. Existem alguns exemplos recentes que já se tornaram clássicos indiscutíveis. Destaco três, bem diferentes entre si, mas que já entraram para a história da sétima arte:



Em Cidade de Deus, o personagem Buscapé entende o significado exato do ditado “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come” no instante em que, armado apenas com sua máquina fotográfica, fica exatamente no meio da batalha iminente entre o bando de Zé Pequeno e a polícia. A câmera faz um giro completo e vertiginoso, numa das tomadas mais famosas (e copiadas) dos últimos anos.



I see dead people. A força da confissão sussurrada do pequeno Haley Joel Osment em O Sexto Sentido é tão poderosa que a frase chega a dispensar a tradução “eu vejo gente morta”, sendo prontamente entendida até por quem não fala uma palavra de inglês. Apavorado, exalando fragilidade sob um cobertor, o menino revela o que já sabíamos mas, ainda assim, não queríamos ouvir. O espectador ainda está sob impacto da fala anterior quando vem seu complemento. Com que freqüência isso acontece? All the time (o tempo todo).


Pulp Fiction é um filme repleto de cenas célebres. Mas nenhuma supera John Travolta e Uma Thurman dançando um estranhíssimo twist (ou seja lá o que for aquilo) numa ainda mais estranha lanchonete. Ele, meio balofo e desconjuntado, começa tímido e depois se solta pra valer ao som de You Never Can Tell. Ela, super feminina de terno, esbanja graça e elegância. O gesto do casal de fazer um V com os dedos médio e indicador e passá-los na frente dos olhos é copiado em pistas de dança até hoje.

O Incrível Noel


Estréia na próxima sexta, dia 2, Noel - Poeta da Vila. Livremente inspirado na biografia escrita por João Máximo e Carlos Didier, o filme faz um apanhado da vida e obra deste fenômeno que foi Noel Rosa. Em apenas sete anos de carreira, o morador mais ilustre de Vila Isabel compôs nada menos que 252 músicas. Inacreditável.

O filme, como obra cinematográfica, não arrisca muito. Mas a história de Noel Rosa, estudante de medicina que jogou tudo para o alto para viver intensamente de música e boemia, é dessas que valem a pena contar. Sem contar a trilha sonora de primeiríssima. Afinal de contas, Noel Rosa pertencia àquela classe de gênio que sempre fazia bonito. Como diz seu pai em uma das cenas “cada vez que você tosse, sai uma poesia”. Para tanto, basta lembrar que sua primeira composição já foi a famosíssima Com que Roupa? Alguns anos depois, encerraria a carreira com a poética e profética Último Desejo, composta em homenagem à dançarina de cabaré que foi sua grande paixão.

Ficha de Noel - Poeta da Vila no Adoro Cinema

26 de out de 2007

Reclamação - Parte 2

Segue abaixo, na íntegra, a mensagem enviada pela ArcoÍris Cinemas decorrente da reclamação do leitor Miguel Mascarenhas, publicada aqui no blog.

Caro Francisco,

Obrigado por acessar nosso site e freqüentar nossos cinemas.

Gostaríamos de ressaltar que o arcoiris Capitolio não foi vendido.

Mais uma vez, obrigado pelo seu contato. Suas perguntas, opiniões e sugestões são muito importantes pra nós e serão sempre bem vindas. Esperamos tê-lo em breve em uma próxima sessão dos Cinemas Arcoíris/Arcoplex.

25 de out de 2007

Reclamação

Segue logo abaixo o e-mail que recebi do Miguel Mascarenhas, leitor do Adoro Cinema. Infelizmente trata de uma situação que não é exclusiva de Pelotas e que tem se tornado comum nos últimos anos.

Gostaria também de pedir um favor especial.Moro em Pelotas, Rio Grande do Sul, cidade que acaba de receber a maior ofensa à sua cultura. O tradicionalíssimo cinema Capitólio, da ArcoÍris Cinemas, foi fechado e vendido para virar um ESTACIONAMENTO. Mandei 2 e-mails para a ArcoÍris Cinemas, no primeiro (que foi antes de virar estacionamento), eles tiveram o despeito de dizer que estavam “estudando a possibilidade de reforma”. O segundo, furioso, eles nem responderam. Agredeceria MUITÍSSIMO a vocês se reportassem essa afronta absurda à cidade no AdoroCinema. Se não for possível, entenderei, mas por favor, não façam como fez a ArcoÍris Cinemas, me dêem uma resposta sobre esse pedido.

Este blog está aberto para que a ArcoÍris Cinemas, caso deseje, se pronuncie sobre o ocorrido.

24 de out de 2007

A Doença do Cinema

Sou um cinéfilo à moda antiga. Daqueles que cultuam a ida ao cinema, em detrimento a qualquer outra mídia. Por melhor que seja o sistema de home theater e por mais polegadas que tenha a TV de plasma, nada supera a sensação de estar na sala escura. Não é o lado técnico, é a magia em torno. Isto, ao menos para mim, é insubstituível.

Assisti a Cinema Paradiso. Já o tinha visto quando criança, mas com os olhos de um consumidor voraz das aventuras de James Bond, que nem tinha idéia - ou se importava - com quem eram seus intérpretes. Na verdade nem sei o porquê de tê-lo assistido, já que não tinha o menor perfil dos meus interesses em filmes na época. Guardava alguns momentos na memória e que tinha gostado dele, apenas isto.

Às vezes me impressiono como a percepção de um filme muda de acordo com o seu momento, o seu pensamento. No caso em questão, o modo como se vê cinema. Não assistir a um filme, mas o ato de ir ao cinema. A emoção, o sentimento, as sensações envolvidas… a reação das pessoas… os imprevistos… a magia. Cinema Paradiso é sobre isso. Um filme que toca fundo a todos aqueles que sentem este processo. Ou, como uma personagem diz, a quem sofre da doença do cinema.

Obra-prima. Não consigo defini-lo de outra forma.

Ficha de Cinema Paradiso no Adoro Cinema

Promoções

Amanhã é dia de ingresso reduzido nos cinemas de todo o país, a R$ 4. Uma iniciativa que começou com o grupo Severiano Ribeiro e, aos poucos, foi se espalhando pelas demais exibidoras. Várias salas do Cinemark, UCI e ArtFilms farão a mesma promoção.

Na última vez em que isto aconteceu os cinemas receberam um público bastante superior ao normal. O que também ocorre nos dias em que há promoções com ingressos a R$ 10, geralmente nas segundas ou nas quartas.

Fica então a pergunta: se há um aumento significativo de público nos dias em que há promoções, por que não abaixar o preço do ingresso de um modo geral? Interesse do público por cinema há, o que não há é poder aquisitivo para pagar regularmente quase R$ 20 para comprar um único ingresso. O resultado é que alguns poucos filmes têm grande público e uma enxurrada deles terem público bastante reduzido. Um preço mais acessível possibilitaria que as pessoas vissem mais filmes, além de permitir que outras que hoje nem vão aos cinemas, pelo preço alto, pudessem retornar às salas.

É claro que a situação não é tão simples assim. Há a questão das carteiras de estudante, que fazem com que a meia entrada seja maioria entre os ingressos vendidos. Há a pirataria, que sempre afeta. Há a estreita janela com o DVD, que faz com que alguns prefiram aguardar o lançamento neste formato a assisti-lo no cinema. Mas preste atenção no que ocorrerá amanhã, quando provavelmente o público será mais uma vez bem superior ao normal, e pense: se é possível isto ocorrer num dia, por que não pode nos demais?

23 de out de 2007

Aconteceu no Cinema

Sabe quando alguém diz que o filme dá vontade de dançar no cinema?

Ontem, sessão das 22 hs de Hairspray no UCI NorteShopping, no Rio de Janeiro. Um casal entra na sala com duas crianças, em torno de 8 a 10 anos. O filme começa e, contagiadas pelas canções, as crianças dançam sem parar. O filme todo, até o fim.

Quanto ao filme, a Erika definiu bem em sua crítica: não tem como não se sentir feliz após assisti-lo. É divertidíssimo! Nikki Blonsky é a alma do filme: carismática, elétrica, cantando e dançando bem e com um brilho no olhar que cativa. O elenco todo está muito bem, com destaque também para James Marsden e Michelle Pfeiffer, além das canções terem verdadeiras pérolas em tom irônico: “eles não vão para a faculdade, mas estão na moda” ou “para que dormir à noite se você pode cochilar na aula”.

Muito bom mesmo, dos melhores filmes lançados neste ano nos cinemas.

Direto para as Prateleiras

Conforme já noticiado aqui no Adoro Cinema há alguns dias, Valente, o novo filme de Neil Jordan, teve seu lançamento nos cinemas cancelado. Assisti ao filme no último Festival do Rio e tenho que admitir que está muito abaixo do que costumo esperar de um filme de Neil Jordan (ainda mais considerando que seu último longa foi o ótimo Café da Manhã em Plutão). Valente é, no máximo, razoável. Mas daí abortar seu lançamento nos cinemas e jogá-lo direto numa prateleira de locadora vai uma inexplicável diferença. Afinal de contas, é um filme de ação do tipo que costuma atrair um público respeitável. Sem contar o chamariz adicional de ser estrelado por uma armada e perigosa Jodie Foster.

O mais curioso é que a mesma Warner que optou por não lançar Valente antecipou a estréia de Um Verão Para Toda Vida agora para novembro. Se Valente não é tudo aquilo que se esperava, Um Verão… (December Boys, no original) é decepcionante e tem como maior atrativo a presença de Daniel Radcliffe, numa entressafra da série Harry Potter.

A decisão parece ter sido tomada de última hora, já que cinemas pela cidade inteira exibem posters, banners e cartazes gigantes de Valente. Hoje mesmo, ao passar pelo Estação Botafogo, pude constatar um banner ainda pendurado lá. Curiosamente, ao lado do banner de 20 Centímetros, que figura há mais de um ano como filme “a ser lançado”. Mais: quando assisti a Piaf, na semana passada, o trailer de Valente foi exibido antes.

Em se tratando de lançamentos cinematográficos, esse episódio não é o primeiro. Apenas chama a atenção por envolver um filme em cujo lançamento eu apostaria de olhos fechados. Essa imprevisibilidade é um sintoma assustador da fragilidade de nosso mercado cinematográfico.

Está certo que lançamento em DVD é melhor que lançamento nenhum, mas para quem, como eu, aprecia cinema e não pode bancar um home teather, é frustrante ter que assistir a um filme pela primeira vez numa TV de 20 polegadas. Experiência pela qual passei recentemente com o ótimo O Segredo de Berlim. Outro filme que merecia ter sido lançado na telona, mesmo que fosse modestamente. E não nos esqueçamos de que o longa é dirigido por Steven Soderbergh e estrelado por George Clooney, Cate Blanchett e Tobey Maguire. Acho muito difícil acreditar que um time desses não levaria um mínimo de espectadores ao cinema.

22 de out de 2007

Censura

Recebi há pouco o seguinte e-mail, enviado por um leitor do Adoro Cinema:


Srs.
Recebi um e-mail, solicitando uma coleta de assinaturas para a não exibição de um filme chamado: ‘Corpus Christis’, no qual fala da vida de Jesus e seus discípulos como homosexuais. Gostaria de saber se tal filme existe mesmo, pois encontrei algumas informações na internet desmentindo existência de tal filme.



Jamais ouvi falar deste filme e, pelas pesquisas que fiz, ele não existe. As características da mensagem apontam que seja um spam, embutido na tentativa de obter dados de quem o recebe. Coisas da internet, nada de novo. Mas há um ponto importante nesta mensagem: a tentativa de censura a um filme.

Isto não é novo no Brasil. Vivemos uma época em que ainda há resquícios da censura imposta pela ditadura, o que faz com que volta e meia surjam tentativas de se impedir que um filme seja exibido por aqui. Aconteceu com Dogma, A Paixão de Cristo, O Código Da Vinci e, mais recentemente, Tropa de Elite. Em todos os casos a Justiça impediu que a censura seguisse adiante.

O que me preocupa é a massificação deste conceito de que existe o direito de se censurar um filme, por ser considerado ofensivo a determinado grupo de pessoas. Ninguém é obrigado a assistir a qualquer filme. Este tipo de atitude, além de ser ditatorial, impede a livre discussão, a livre troca de idéias. Da mesma forma que existem pessoas contrárias aos ideais de determinado filme, existem as que são a favor e ainda as que estão dispostas a debater em torno do tema apresentado. A censura impede que tudo isto aconteça. É como se alguém considerasse todos os demais incapazes para assistir a um filme e analisá-lo, de forma que concorde ou discorde de seu conteúdo. É como se alguém fosse superior, mais inteligente, para tomar uma decisão deste tipo em nome dos demais.

Sou radicalmente contra a censura, a qualquer filme. Se “Corpus Christis” existir, defendo que um dia seja exibido no Brasil. Não por concordar ou discordar de seu conteúdo, mas por defender que as idéias e ideais tenham livre espaço neste país, independente de quais sejam.

20 de out de 2007

Na Corrida pelo Oscar

A Academia divulgou a relação completa dos inscritos ao próximo Oscar de filme estrangeiro. Ou seja, agora sabemos todos os candidatos às indicações da categoria.

Confira os candidatos ao Oscar 2008 de filme estrangeiro - Parte 1

Confira os candidatos ao Oscar 2008 de filme estrangeiro - Parte 2

Com esta relação surge então a pergunta: quais são as chances de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, candidato nacional deste ano? Boas, mas não garantidas. São poucos os candidatos de peso que concorrem neste ano. O único filme consagrado é 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Mas há também os novos filmes de diretores famosos, como Denys Arcand (A Era da Inocência), Giuseppe Tornatore (”La Sconosciuta”), Fatih Akin (”The Edge of Heaven”) e Andrzej Wajda (”Katyn”).

Entretanto a maior dificuldade em fazer apostas nesta categoria é sua própria imprevisibilidade, que tem sido famosa nos últimos anos. Indicações consideradas certas, como as de Volver, Cidade de Deus e Adeus, Lênin, não se concretizaram. Filmes desconhecidos e que não figuravam em lista alguma de apostas, como Depois do Casamento, foram indicados. Ou seja, se há uma categoria ao Oscar onde surpresas ainda acontecem, e aos montes, é na de filme estrangeiro.

O Ano em que Meus Pais… é dos candidatos mais conhecidos desta lista, por ter participado da mostra competitiva do Festival de Berlim deste ano. Não é uma garantia de indicação, mas um auxílio em sua candidatura. Só que a história mostra que nem sempre este auxílio é reconhecido pela Academia.

Homenagens

A TV por assinatura se prepara para prestar homenagens a Paulo Autran e Deborah Kerr, que faleceram nos últimos dias. O Canal Brasil alterou sua programação deste domingo, de forma a dedicá-la ao ator brasileiro. Confira a nova programação:

22h30 - Retratos Brasileiros - Paulo Autran (2001) (27′)
23h00 - Curta na Tela: A Partida (2003) (19′)
23h20 - Curta na Tela: O Transformista (1979) (8′)
23h30 - Terra em Transe (1967) (108′)

Já o canal Film & Arts exibirá na próxima terça dois filmes estrelados por Deborah Kerr: A Um Passo da Eternidade e “Bom Dia, Tristeza”. As exibições ocorrerão às 20 hs e 22 hs, respectivamente.

Má Educação


Um assunto que sempre atraiu minha atenção foi a tradução de títulos de filmes. Exemplos hilários é o que não faltam na ânsia dos distribuidores de tornar seu produto atraente para o espectador. Ainda lembro quando, nos anos oitenta, o sucesso estrondoso do filme de vampiros A Hora do Espanto (Fright Night, algo como noite de pavor), desencadeou o batismo de inúmeros filmes de terror com a palavra “hora” em seu título: A Hora do Pesadelo (na verdade, A Nightmare on Elm Street ou pesadelo na rua Elm), A Hora da Zona Morta (simplesmente The Dead Zone – a zona morta), e o mais gritante de todos: A Hora do Lobisomem, que se chamava Silver Bullet (bala de prata). Não deixa de ser irônico notar que nem o filme que desencadeou tal loucura tinha “hora” em seu título original.

Outra categoria curiosa é a dos filmes que continuam com seu título original e ganham um subtítulo alienígena: Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, Kinsey - Vamos Falar de Sexo, Hollywoodland - Bastidores da Fama e Minority Report - A Nova Lei são apenas alguns poucos exemplos. Ou pior, quando o original em inglês é sonoro demais para ser desprezado e o subtítulo entra em cena tão-somente como uma tradução deste, caso de Closer – Perto Demais (a tradução nem é exata, mas tudo bem) ou Sin City – A Cidade do Pecado.

Stardust, como já era de se esperar, teve seu título original mantido e ganhou de lambuja o subtítulo “o mistério da estrela”. OK. Até aí sem novidades. Mas o que não sai da minha mente mesmo é o sloganzinho criado para o filme: “o conto de fadas mal-comportado”. Como assim? Mal-comportado onde, cara pálida? O filme fica no meio do caminho entre o infanto e o juvenil e fracassa nas duas propostas (é adulto demais para os pequenos e bobo para os jovens) e, por conta dessa indecisão quanto ao público-alvo, tem pudores até de mostrar o sangue em sua cor original.

Caros leitores, me ajudem a encontrar o mal-comportamento do filme ou, pelo menos, a redefinir o conceito de mal-comportado.

Ficha de Stardust no Adoro Cinema

19 de out de 2007

Garçonete

Garçonete engana os incautos. A história, e até mesmo o trailer, vendem o filme como se fosse uma comédia romântica, daquelas bem adocicadas e que exploram o tema da cozinha como meio de atração. Nada mais errado. Trata-se de um drama, daqueles que apresentam uma proposta de formato e se mantém fiel a ela até o fim. No caso em questão, à infelicidade da protagonista Jenna.

Só que esta fidelidade simultaneamente age a favor e contra o filme. A favor pelo lado de que há um certo desconforto na história, que faz com que ela evite os clichês esperados. Contra porque a insistência em ressaltar a infelicidade de Jenna faz com que o filme fique travado e até repetitivo em certos momentos. Além disto, certas situações criadas para tornar a vida de Jenna ainda mais infeliz soam exageradas, como a declaração do marido ao saber da gravidez da esposa, sobre cuidar dele e do bebê que está por vir.

No fim das contas trata-se de um filme mediano, mais interessante pelo modo como a história é conduzida.

Ficha de Garçonete no Adoro Cinema

18 de out de 2007

Mostra de São Paulo

Leia a notícia: Começa a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Oficialmente a Mostra de SP começa hoje, mas para o público seu início é apenas amanhã. Normal, todo ano é assim. O que importa é que agora é a vez dos paulistas iniciarem sua maratona cinematográfica, já que mais de 350 filmes serão exibidos pelas próximas duas semanas.

Desde que o Festival do Rio foi criado a Mostra de SP perdeu parte do ineditismo de sua programação. Muitos filmes aparecem em ambos os eventos e, por questões de calendário, são exibidos antes no Rio. Para contrabalançar, a Mostra sempre procura apresentar alguns filmes com exclusividade, às vezes até em parceria com distribuidoras nacionais. Além disto o calendário ajuda a que filmes em exibição no Festival de Veneza cheguem na Mostra, o que nem sempre se consegue no evento carioca.

Alguns destaques exclusivos da Mostra deste ano são Across the Universe; O Passado; “Persepolis”; “A Vida dos Outros” - Oscar de filme estrangeiro deste ano -; “Redacted” - Leão de Prata de diretor para Brian De Palma, em Veneza -; “Angel”, de François Ozon; “Caótica Ana”, de Julio Medem; “Do Outro Lado”, de Faith Akim; “Glória ao Cineasta!”, de Takeshi Kitano; “Into the Wild”, de Sean Penn; “Longe Dela”, de Sarah Polley; “No Vale das Sombras”, de Paul Haggis; “O Caminho dos Ingleses”, de Antonio Banderas; e “Um Amor Jovem”, de Ethan Hawke.
Por outro lado estiveram no Festival do Rio e não aparecerão na Mostra os filmes Sem Fôlego, I’m a Cyborg, But That’s Ok, Mundo Livre, Amor e Outros Desastres, O Acompanhante, O Escafandro e a Borboleta, Fados e Hallam Foe.

Já entre os filmes nacionais a Mostra traz uma variedade bem maior. Além dos exibidos no Rio estão também os do Festival de Gramado deste ano, além de duas estréias do cinema trash: “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Martins - vulgo Zé do Caixão -, e “Fuga Sem Destino”, o filme que Afonso Brazza deixou inacabado ao morrer.

Para quem for acompanhar a Mostra deste ano o Adoro Cinema preparou uma relação com os filmes em exibição que já possuem ficha própria no site, disponível aqui. E na página de críticas, aqui mesmo no blog, estão disponíveis análises de vários dos filmes em exibição no evento, que estiveram também no Festival do Rio. Boa maratona a todos.

16 de out de 2007

Nação Fast Food

Em épocas de Festival, acabamos ficando desatentos com o que rola no circuito normal. E, com isso, alguns bons filmes passam despercebidos. Um que está em cartaz, quase sendo expulso dos cinemas (uma das poucas salas que o exibem é o Estação Botafogo 2, e dividindo horário), é Nação Fast Food, do Richard Linklater.

Tinha curiosidade de ver esse filme desde o Festival do Rio do ano passado e no último domingo finalmente consegui saciá-la. Assim como nosso polêmico Tropa de Elite, Nação Fast Food é uma ficção que cheira a realidade total. Greg Kinnear interpreta um (a princípio) bem-intencionado executivo de rede de fast-food encarregado de investigar o porquê da carne de seus hamburgueres apresentar alto teor de coliformes fecais (isso mesmo, meus caros!) ou, como diz um dos personagens, “shit in the meat”. O filme acompanha não apenas suas descobertas a respeito dos métodos do matadouro que abastece sua empresa, mas também as histórias de algumas pessoas que ali trabalham.

Com uma abordagem meio documental, mas sem a frieza imparcial destes, Nação Fast Food faz uma radiografia nada bonita dos hábitos carnívoros do povo americano. E olha que não estamos falando apenas de comida. Vale conferir!

Ficha de Nação Fast Food no Adoro Cinema

15 de out de 2007

Revendo Mar Adentro

Assistir a O Escafandro e a Borboleta no Festival do Rio me fez ter vontade de rever Mar Adentro. Nem tanto por suas semelhanças - os personagens principais de ambos têm grandes limitações físicas -, mas principalmente pelas suas diferenças. Mar Adentro defende a morte, enquanto que O Escafandro… a vida. Analisar este contraste era meu interesse.

Para minha surpresa, Mar Adentro não defende a morte. Defende o direito à morte, o que é bem diferente. Este pequeno detalhe, o qual não lembrava de quando o havia visto pela 1ª e até então única vez, muda bastante seu sentido. E, de certa forma, o torna mais próximo a outro filme, Obrigado por Fumar, que também debate as liberdades de decisão que as pessoas possuem.

Ramón Sampedro, interpretado com maestria por Javier Bardem, quer morrer. Porém o filme não é sobre seu desejo, mas a necessidade que tem de receber ajuda para que possa morrer. Ramón é tetraplégico, apenas consegue mexer a cabeça. É inteiramente dependente de sua família, que cuida dele há 26 anos. Para ele isto não é vida mas, sozinho, não pode dar um fim à sua situação. Só que qualquer pessoa que o ajude pode ser acusada de assassinato.

A questão principal não é a defesa ou não da vida - que até é abordada no filme, sob vários aspectos -, mas sim o direito de cada um de fazer o que bem entender dela. Em determinado momento é levantada uma questão, muito interessante, de âmbito jurídico: “se uma pessoa fracassa ao tentar o suicídio ela não é condenada depois pelo que fez. Por que alguém que ajuda uma pessoa que quer se suicidar, mas não pode por limitações físicas, é condenada?”

Mar Adentro é um estudo sobre esta contradição. Trata-se de um filme que precisa ser visto sem pré-conceitos para que possa ser apreciado. Como Ramón volta e meia diz, “não quero que me julgue, mas que me entenda”.

Ficha de Mar Adentro no Adoro Cinema

Invasores

Quem foi criança ou adolescente nos anos 70 ainda tem bem gravado na mente o pavor que sentiu ao ver pela primeira (de muitas vezes) Invasores de Corpos. O filme, dirigido em 1978 com competência por Philip Kaufman, trazia uma sombria visão do futuro da Terra: alienígenas vegetais se apossavam dos corpos humanos transformando-os em zumbis e perseguindo sem trégua aqueles que ousavam resistir. Na verdade, Invasores de Corpos já era a segunda adaptação para a telona do conto de Jack Finney – originalmente publicado numa revista com o título “Sleep No More” (não durma mais). Uma primeira versão de Invasion of the Body Snatchers (aqui no Brasil, Vampiros de Almas) já havia sido realizada em 1956 por Don Siegel. Posteriormente, houve ainda uma seqüência dirigida por Abel Ferrara em 1993 (Os Invasores de Corpos - A Invasão Continua).

E eis que quando parece que o assunto está definitivamente esgotado, surge uma quarta e nova edição da velha história. Para a direção, é importado da Alemanha Oliver Hirschbiegel (do ótimo A Queda – As Últimas Horas de Hitler), para realizar seu primeiro filme em língua inglesa. À frente do elenco, duas estrelas conceituadas: Nicole Kidman e Daniel Craig. A trama difere pouco das anteriores. Desta vez, é um acidente com um ônibus espacial que traz para a Terra algo mais que destroços. Pouco a pouco, uma bizarra epidemia se alastra. Os afetados, embora pareçam os mesmos fisicamente, tornam-se pessoas insensíveis e sem qualquer vestígio de emoção. A psiquiatra Carol Bennell e o cientista Ben Driscoll descobrem que a mudança ocorre na primeira noite de sono após o contágio. Logo torna-se difícil saber quem está infectado e, para manter a própria identidade, é preciso desconfiar de tudo e todos. E não dormir.

Desnecessário. Essa é a melhor palavra para resumir Invasores. É evidente que trata-se de uma boa história, que se converteria num filme bem interessante… se o espectador não estivesse vendo a mesmíssima coisa mais uma vez. E numa versão inferior à de Philip Kaufman, que é, sem dúvida, a melhor das quatro. Nada impede que uma história seja refilmada várias vezes, mas é preciso ao menos uma nova abordagem para despertar algum interesse. E Invasores, além de não acrescentar nada ao que já foi realizado, ainda tem um final arrumadinho que é uma baita decepção. Sem contar uma continuidade estranha e a grande praga do cinema atual: a inevitável e interminável seqüência de perseguição de carro perto do desfecho. E antes de colocarmos a culpa no diretor, é bom que se saiba que as besteiras provavelmente foram feitas à sua revelia. Tanto que o longa deveria ter sido lançado no ano passado, mas os produtores não aprovaram a versão realizada por Oliver Hirschbiegel e simplesmente resolveram refazer parte do filme. Os irmãos Andy e Larry “Matrix” Wachowski foram convocados para reescrever o roteiro e o pupilo destes, James McTeigue, para dirigir as cenas adicionais.

O filme estréia nesta sexta. Tremenda bola fora.

Ficha de Invasores no Adoro Cinema

Mulher de Fases

Escrever sobre Invasores me chamou atenção para o fato de Nicole Kidman estar fazendo escolhas infelizes ultimamente. Reparem só no que a moça fez nos últimos anos:

2006 - A Pele (Fur)
2005 - A Feiticeira (Bewitched)
2005 - A Intérprete (The Interpreter)
2004 - Reencarnação (Birth)
2004 - Mulheres Perfeitas (The Stepford Wives)
2003 - Revelações (The Human Stain)
2003 - Cold Mountain (idem)

As escolhas de papéis aqui vão de arriscadas a sofríveis. E o mais estranho é que Nicole estava saindo de uma fase oposta, ou seja, um período em que fez grandes escolhas que resultaram em grandes personagens e culminaram com um Oscar pela Virginia Woolf de As Horas. Eu, particulamente, acho que ela deveria ter conquistado o Oscar no ano anterior (por Moulin Rouge!), mas isso é outra história. O fato é que num breve intervalo de dois anos (entre 2001 e 2003), Nicole Kidman fez pelo menos quatro excelentes trabalhos: Moulin Rouge!, Os Outros, As Horas e Dogville.

Como admiradora de seu talento, só me resta torcer para que essa fase ruim esteja chegando ao fim.

14 de out de 2007

O Efeito Tropa de Elite

Assim como acontece nos camelôs e nos cinemas, Tropa de Elite faz sucesso no Adoro Cinema. A ficha do filme foi a 2ª mais acessada pelos leitores durante o mês de setembro. E, aqui no blog, a crítica ao filme é o post mais acessado até então.

Mas o principal parâmetro do sucesso do filme está na lista das fichas de atores mais acessadas, onde a de Wagner Moura desbancou a de Johnny Depp, figura constante desde que o ranking passou a ser divulgado.

Confira o Top 10 das fichas de filmes

Confira o Top 10 das fichas de atores

Confira o Top 10 das fichas de diretores

Hairspray

Hairspray foi o filme mais visto no recém-finalizado Festival do Rio: atraiu nada menos que 2306 espectadores. Optei por não vê-lo por sua estréia estar bem próxima. Aliás, o filme deveria ter entrado antes em circuito e isso não havia acontecido justamente para inclui-lo no Festival. Confesso que, apesar de gostar muito de musicais, duas coisas me deixavam de pé atrás. Em primeiro lugar, essa mania de remakes (Hairspray, além de ser adaptação de um musical da Broadway, é refilmagem de um longa de John Waters de 1988); em segundo, a caracterização de John Travolta como Edna Turnblad me lembrou Eddie Murphy em O Professor Aloprado (outra refilmagem tosca) e eu temi que Hairspray, por conta disso, se convertesse em um filme mais sobre látex do que sobre laquê.

Para minha surpresa e divertimento, nenhum de meus temores se confirmou. Hairspray é uma explosão de alegria e bom humor como raramente se vê nos musicais modernos. Seguindo a cartilha de clássicos como Grease (com o qual tem várias semelhanças além da presença de Travolta) e com uma trilha sonora empolgante, o filme é um verdadeiro antídoto para mau humor. A caracterização de Travolta causa choque à primeira vista, mas o curioso é que ao longo do filme nos esquecemos completamente de que é um homem que está por trás daquelas camadas e mais camadas de látex. Especialmente na seqüência em que a doce Edna canta em dueto com o aparvalhado marido (interpretado com surpreendente meiguice por Christopher Walken).

Hairspray é ambientado na Baltimore de 1962 e tem como pano de fundo um país que engatinhava lentamente na integração racial. Ainda havia cordas separando negros de brancos em ocasiões festivas e o programa televisivo de dança tinha um “dia do negro” - fazendo disso uma espécie de escandalosa concessão. Mas o longa não é panfletário e toca nas questões sociais com leveza e bom humor. Um exemplo é quando a protagonista Tracy (também ela discriminada pelo excesso de peso) tenta socializar com a galera excluída do colégio e diz que adora “o dia do negro”, ao que o rapaz negro responde “lá em casa é todo dia”.

Outro ponto alto do filme é o fato de todos os atores cantarem com suas próprias vozes. De John Travolta e Queen Latifah isso até já era de se esperar, mas todo o elenco solta a voz pra valer. A estreante Nikki Blonsky, com seu carisma e afinação, é um verdadeiro achado. Ao vê-la cantando e dançando a bonitinha Good Morning Baltimore na seqüência de abertura, o espectador já pode sentir que vai assistir a um ótimo filme. Outra boa surpresa é o geralmente apático James Marsden (o Ciclope da trilogia X-Men) e sua convincente performance como o moderninho apresentador Corny Collins.

Parafraseando o que disse nosso colega Lucas sobre Pequena Miss Sunshine, Hairspray é terapia antidepressiva. Não tem como não se sentir feliz depois de assisti-lo.

Ficha no Adoro Cinema

13 de out de 2007

Disputa Cada Vez Mais Arriscada

Tenho por hábito catalogar os filmes que assisto a cada ano. Não só por curiosidade, mas também porque ajuda bastante na hora de montar a relação dos melhores e piores lançados no cinema. Pois nesta quinta assisti a um filme que, se não entrar no top 10 piores, é porque a disputa deste ano está muito acirrada: Nunca é Tarde para Amar.

Não dá para entender o que fez Michelle Pfeiffer embarcar neste projeto. Ou melhor, até dá, mas me parece muito pouco para entrar em tamanha furada. Nunca é Tarde para Amar brinca com a questão da idade em Hollywood, uma indústria onde a beleza e a jovialidade sempre são valorizadas. Há uma cena em que diversas atrizes de meia idade são citadas e descartadas, o que provoca a fúria da personagem de Pfeiffer. É algo que poderia acontecer com a própria atriz, hoje aos 49 anos. Brincar com sua própria situação é o único atrativo que consigo ver para Pfeiffer. Mas, repito, é muito pouco para o festival de piadas tolas e situações exageradas que o filme apresenta. Chega a ser irritante de tão ruim.

Ficha de Nunca é Tarde para Amar no Adoro Cinema

Trailers

Gosto de assistir trailers, mas em certos casos agradeço por não tê-lo visto antes de assistir a determinado filme. Na ânsia de vender o produto muitas vezes se conta quase toda a história naqueles poucos minutos. Isso quando o trailer não traz as melhores - e às vezes únicas - piadas da história.

Pois é exatamente o que acontece com Morte no Funeral. Assisti ao filme no Festival do Rio - leia aqui a crítica -, então já conhecia a história. O trailer conta praticamente tudo, com exceção do desfecho. As poucas boas piadas também estão presentes. O filme já é bem mediano, com o espectador indo assisti-lo já conhecendo de antemão as poucas boas situações o que sobra? Nada.

Se você já assistiu ao trailer de Morte no Funeral, nem perca tempo com o filme.

11 de out de 2007

De Volta ao Circuito

Devido ao Festival do Rio abandonei por completo o circuito de cinema nas últimas semanas. Ontem comecei a cobrir estas lacunas, com dois filmes que estava com um certo pé atrás.

Nicolas Cage era a causa da minha desconfiança com O Vidente. Não o considero um ator ruim, mas sua atual fase é de causar calafrios. Sua última boa atuação foi em O Senhor das Armas, que já tem 2 anos. Aqui Cage está novamente no piloto automático, sem brilhar. Mas o problema do filme não é Cage, nem a policial durona e clichê de Julianne Moore ou Jessica Biel sendo Jessica Biel novamente - ok, ela é linda, mas péssima atriz. O problema é que O Vidente é um filme de ação, quando não precisava ser.

Os livros e estórias de Philip K. Dick sempre trazem questões interessantes sobre o futuro ou a percepção que temos dele. Aqui não é diferente, com Cris Johnson, o personagem de Cage, sendo capaz de prever até 2 minutos de seu próprio futuro. Lá pelas tantas a personagem de Jessica Biel, que ainda não sabe desta capacidade, comenta algo tipo “não gostaria de saber meu destino. qual é a graça da vida se ela não tiver surpresas?”.

Bingo! Eis a grande questão de O Vidente. A vida de Cris não tem surpresas, já que ele sempre sabe o que acontecerá - e muitas vezes manipula seu futuro, fazendo inúmeros testes até encontrar a alternativa cujo resultado mais lhe agrade. Trabalhar esta idéia, o conflito existente no personagem pelo fato de ter nascido com este dom ao invés de escolhê-lo, e até a questão ética das análises mentais que faz antes de enfim agir, seria interessante. Mas qual foi a resposta a este comentário? Nada.

Discutir, ou até mesmo levantar temas como este, não está nos planos de O Vidente. O que acontece com Cris é apenas uma desculpa para fazer mais um filme de ação convencional, com truques de roteiro e todos os aparatos explosivos que Hollywood bem sabe fazer. Deixou a sensação de material mal aproveitado, a mesma que tive ao assistir a Eu, Robô anos atrás.

Ficha de O Vidente no Adoro Cinema

Outro filme que estava desconfiado era Ligeiramente Grávidos. Por algo que está explícito em seus cartazes: “dos criadores de O Virgem de 40 Anos”. Sei que sou minoria, mas detesto O Virgem de 40 Anos. Considero um filme apelativo, exagerado e sem graça alguma. Mas não sou daqueles que devido a um filme ruim nada mais vê de um ator ou diretor, sempre dou uma nova chance. E lá fui assistir ao filme.

E não é que me surpreendi? Trata-se de um filme simpático, que mostra com competência as dificuldades de uma gravidez inesperada e indesejada. Duas pessoas completamente diferentes que tentam dar o melhor de si para resolver a situação. Às vezes acertam, às vezes erram, assim como é a vida de todo mundo. Peca por às vezes apelar para piadas escatológicas - como americano gosta de cenas deste tipo -, mas elas são minoria dentro do filme. Uma boa surpresa.

Ficha de Ligeiramente Grávidos no Adoro Cinema

Bons Filmes, Bilheterias Nem Tanto

Num ano de bilheterias magras para o cinema nacional, a grande expectativa nesse último semestre de 2007 é saber se Tropa de Elite vai cumprir o papel de salvador da pátria. Creio que o filme deve fazer boa carreira na telona - apesar dos males da pirataria -, mas é complicado colocá-lo nessa posição. Assim, qualquer bilheteria abaixo dos cinco milhões feitos por 2 Filhos de Francisco vai parecer um fracasso. O que está longe de ser verdade.

Outro estranho paradoxo é o cinema brasileiro ter ido tão mal financeiramente justo num ano em que tivemos filmes tão bons e diversificados. Além do próprio Tropa de Elite, chamo a atenção para outros dois filmes que considero excepcionais: Batismo de Sangue e O Cheiro do Ralo. Além destes, também merecem destaque Querô, Não Por Acaso, Cidade dos Homens e Saneamento Básico, O Filme. Quatro produções bem diferentes entre si, mas todas muito bem-realizadas.

Nenhum dos filmes citados acima foi bem de público. Tremenda injustiça. Ainda mais se considerarmos que o único filme brasileiro relativamente bem-sucedido de 2007 foi A Grande Família. Resta aguardar o desempenho de Tropa de Elite para fazer um balanço deste estranhíssimo ano em que o espectador saiu de férias.

10 de out de 2007

O Futuro da Pixar

Entre as várias notícias de hoje, uma em especial me chamou a atenção: a de que a Pixar agora investirá em filmes com atores, deixando de lado a exclusividade na animação.

Leia a notícia: Pixar investe em filmes fora da animação

Assumo que sou fã da Pixar. Pela sua trajetória, pelas conquistas que teve com base na sua capacidade, pela qualidade de seus filmes e, acima de tudo, por não esquecer de algo que muitas vezes é negligenciado em Hollywood: o roteiro. Poucos são os estúdios que prezam tanto a criatividade quanto eles.

Além disto, a Pixar tem um retrospecto invejável. Seu pior filme, Vida de Inseto, peca por ser infantil demais mas ainda assim diverte. São 8 filmes que, no mínimo, são bons - e entre eles há pérolas, como os dois Toy Story. O estúdio ainda não errou, o que torna ainda maior a expectativa - e a pressão - pelo filme seguinte.

Pois agora a Pixar fará filmes “convencionais”, por assim dizer. O que esperar disto? A princípio o mesmo capricho que o estúdio já demonstrou ter com as animações, ao menos em relação a roteiro. Mas na verdade a pergunta que faço é: por que esta mudança de foco?

Não é de hoje que a Pixar sonha com vôos mais altos no Oscar. Os Incríveis teve forte campanha para que fosse também indicado a melhor filme, repetindo o feito de A Bela e a Fera. Competir entre os filmes de animação parece pouco para o estágio atual do estúdio. E a resposta pode estar por aí. “A Princesa de Marte” não é um filme com pinta de Oscar, mas pode ser o início deste caminho - e um início bem rentável, diga-se de passagem. Se não se pode ganhar com filmes de animação, que se ganhe com filmes com atores mesmo.

Outra possibilidade é a simples diversificação do estúdio, que cresceu tanto que agora pode investir em outras áreas. Algo até mesmo natural, visto o que era a Pixar e no que ela significa hoje.

Independente do motivo, a notícia desta mudança é das mais importantes vindas de Hollywood nos últimos tempos. Nem tanto por este filme especificamente, mas pelo que ela pode representar para o futuro.

9 de out de 2007

Tropa de Elite nos Cinemas

Muito se aguardava qual seria o desempenho de Tropa de Elite ao estrear nos cinemas. Nem tanto pela quantia investida ou a qualidade do filme, mas principalmente pelo impacto que a pirataria provocaria neste lançamento. Foram 3 meses com os DVDs piratas à venda em qualquer camelô, com a imprensa noticiando e debatendo o filme. Sim, é verdade que esta agitação ajudou na divulgação. Mas ajudou porque o filme, acima de tudo, é muito bom. Fosse um filme ruim e nem 10% desta situação teria ocorrido.

Tropa de Elite estreou apenas nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo neste fim de semana e levou pouco menos de 180 mil espectadores aos cinemas. Não é um número estupendo, mas também está longe do fiasco que muitos temiam. Trata-se de um bom desempenho, ainda mais levando em conta o lançamento restrito e a concorrência com Resident Evil 3. Se fosse estréia nacional acredito que este número, no mínimo, dobraria.

O desempenho do filme neste próximo fim de semana dará uma boa idéia de até onde ele poderá chegar em relação a público. Mas me parece que ao menos a marca de 1 milhão de espectadores ele conseguirá ultrapassar. Pode ser pouco para quem esperava um concorrente a 2 Filhos de Francisco e seus mais de 5 milhões, mas, diante da situação, é uma conquista e tanto. Ainda mais com o preço que se cobra pelo ingresso atualmente.

Confira o Top 10 Brasil do último final de semana.

8 de out de 2007

Pérola do Dia

Festival encerrado, estou de volta às minhas funções normais no Adoro Cinema. Uma delas é preparar novas fichas de filmes para o site. Estava aqui lendo o pressbook de “Bratz - O Filme”, que estréia já nesta sexta, e achei a seguinte frase, de autoria do produtor Avi Arad:

“Bratz - O Filme é um X-Men para meninas.”


Tirem suas próprias conclusões…

7 de out de 2007

Avaliação Geral

Chegou ao fim o Festival do Rio. Uma tremenda maratona que me deixa de ressaca cinematográfica por alguns dias, sem querer ver qualquer filme pela frente. Afinal de contas, foram 87 filmes em apenas 21 dias. Como bem disse a Erika, é preciso dar um descanso à mente e ao corpo após seu término.

A edição deste ano teve poucos grandes filmes e vários filmes ruins. Fiz um levantamento entre as notas que dei e 29 delas foram inferiores a 5. Igual ou acima de 8 foram apenas 11, apenas um a mais que o suficiente para completar a lista dos melhores. Destaque negativo para a Première Latina, uma das minhas mostras prediletas, que este ano foi decepcionante - apesar que não pude assistir a “Silenciosa Luz” e “La Señal”, elogiados por várias pessoas.

Entre os que estavam na minha lista e não pude assistir - minha programação mudava várias vezes durante o Festival, às vezes até no mesmo dia -, os destaques ficam com “Império dos Sonhos”, “Controle - A História de Ian Curtis”, “A Culpa é do Fidel!” e “Morte do Presidente”. Este último pelo simples fato de não ter chegado ao Festival, sendo substituído de última hora na programação.

Mas, independente da programação ser melhor ou pior do que em anos anteriores, é sempre muito bom acompanhar o Festival do Rio. Não só pelo prazer em assistir aos mais diversos filmes mas pela própria adrenalina do evento, por reencontrar amigos e conhecidos que os afazeres diários acabam afastando. É cansativo, física e mentalmente, mas é também muito prazeiroso. E por isso, quando termina, quem o cobre está exausto mas também com uma ponta de saudade de tudo que passou e já começando a pensar no que pode aparecer na edição do ano que vem.
Mas chega de papo e vamos às minhas listas dos melhores e piores deste Festival do Rio.

10+

1 - Tropa de Elite
2 - Piaf - Um Hino ao Amor
3 - Sonhando Acordado
4 - O Escafandro e a Borboleta
5 - I’m Not There
6 - 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
7 - Paranoid Park
8 - S.O.S. Saúde
9 - Ainda Orangotangos
10 - O Expresso Darjeeling


10-

1 - Caixas
2 - Eichmann
3 - Garrafas Vazias
4 - Olá, Frank!
5 - Cem Pregos
6 - Meu Nome é Dindi
7 - Married Life
8 - People - Histórias de Nova York
9 - Shortbus
10 - Confissões de Lagerfeld

6 de out de 2007

Em Paris

O ciúme faz com que Paul termine seu relacionamento com Anna, com quem vivia junto, e volte para a casa do pai. Lá também vive Jonathan, seu irmão mais novo, que leva a vida na base da brincadeira e tendo vários casos.

A abertura é com o personagem Jonathan conversando com o espectador, na tentativa de criar algum elo entre público-filme. O próprio Jonathan diz que não é ele o personagem principal desta história, mas que teve participação fundamental. Este é o grande problema do filme.

“Em Paris” começa falando sobre as dificuldades em um relacionamento amoroso, que culmina com a depressão de Paul quando volta a morar com o pai. Enquanto é este o foco da trama ela até funciona bem, sendo um drama maduro. Só que quando Jonathan entra em cena põe quase tudo a perder. Trata-se de um daqueles personagens que tentam ser engraçadinhos, fazendo brincadeiras bobas sobre tudo, como forma de atenuar o lado mais pesado da história. E, com isso, torna-se irritante.

Caso “Em Paris” tivesse mais de Paul e Anna e menos de Jonathan o filme melhoraria bastante, pela história e também pelos próprios personagens. Mediano apenas.

Em Paris (Dans Paris), de Christophe Honoré, França, 2007, 90′ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 5,0

Caixas

Anna é uma mulher em torno de 50 anos, que mudou-se recentemente para uma grande casa no litoral. Lá ela passa a receber a visita de pessoas importantes de sua vida, que estão distantes ou já faleceram.

Insuportável! Não dá para definir “Caixas” de outra forma. O filme inteiro é uma divagação da protagonista com seus fantasmas do passado, lembrando memórias desinteressantes e muitas vezes desconexas. O início até prende a atenção, mas logo com 15 minutos pode-se perceber que aquela verborragia não levará à nada, a não ser à sensação de sono profundo. É exatamente o que acontece.

O pior filme que pude assistir neste Festival do Rio.

Caixas (Boxes), de Jane Birkin, França, 2007, 95′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 0

A Era da Inocência

Jean-Marc Leblanc é um funcionário público de Quebec, que leva uma vida monótona. Casado e pai de duas filhas, ele é praticamente ignorado pelas mulheres de sua vida. Para compensar Jean-Marc sonha com situações em que ele é alguém importante, sendo sempre rodeado por belas mulheres.

Denys Arcand usa um humor fino para criticar os dias atuais, onde reina o politicamente correto e as pessoas buscam meios para levar uma vida mais excitante. Jean-Marc é daquelas pessoas que levam uma vida chatíssima e têm consciência disto. Sua válvula de escape são os sonhos, através dos quais pode realizar suas fantasias e ao menos amenizar suas frustrações. Estas sequências são bastante divertidas, pelo próprio inusitado que proporcionam e também pelo contraste com a vida real de Jean-Marc. Mas o melhor é o que ocorre em seu trabalho, onde o politicamente correto é confrontado com o absurdo de determinadas situações, quando este é levado mais a sério do que deveria.

A Era da Inocência funciona muito bem em sua 1ª metade, até que seu foco passa a ser não as pessoas que sonham com outra realidade mas que tentam recriá-la. Trata-se de uma crítica explícita aos adoradores da trilogia O Senhor dos Anéis, mais especificamente aqueles que se vestem como os personagens e criam locais como se estivessem na própria Terra Média. A crítica funciona ao ser apresentada, mas é estendida demais. A partir de então o filme começa a perder o tom de crítica, sua maior qualidade, e segue o caminho do próprio Jean-Marc, que passa a lidar mais com a realidade à sua volta. E torna-se bem mais desinteressante, culminando em um péssimo final.

A Era da Inocência (L’Âge des ténèbres), de Denys Arcand, Canadá, 2007, 104′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 6,0

O Casamento de Tuya

Tuya é uma pastora de ovelhas, que vive nas planícies da Mongólia e cuida de seu marido doente e os dois filhos. Como ela precisa de ajuda no trabalho, seu marido sugere que se separe dele e arranje outro homem. Tuya aceita a proposta, mas exige que seu novo marido cuide também do antigo, que deve morar também com ela e as crianças. Surgem vários pretendentes, mas o casamento sempre esbarra nesta exigência.

A idéia do filme é inusitada. A facilidade com que Tuya aceita a proposta de substituir o marido por alguém que possa ajudá-la no trabalho, independente dela gostar ou não dele, chega a surpreender. O casamento é tratado como um acordo que nada tem a ver com amor, carinho ou entendimento entre homem/mulher, mas como um mero contrato que fará com que duas pessoas trabalhem juntas. Filhos, família e tudo o mais são detalhes, com bem menos importância. É claro que isto não chega a ser novidade, visto os inúmeros casos de pessoas que se casam para obter cidadania de outro país ou para conseguir algum benefício específico. Mas “O Casamento de Tuya” tem algo diferente neste sentido, pelo objetivo ser bem mais simples do que nestes casos. Tuya já está casada e precisa apenas de alguém que possa ajudá-la. Ela não tem a pretensão de ser rica nem sonha com algo grandioso, quer apenas alguém que a ajude em seu trabalho atual mesmo. A naturalidade com que a opção de se casar novamente é tratada, e o fato dela ter sido dada pelo próprio marido, incomoda por causa disto. É uma mudança muito grande por um motivo tão pequeno.

O decorrer do filme é basicamente o impacto que esta mudança causa em Tuya e sua família. Pois, apesar da decisão ter sido tomada de forma bem natural, mudar o cotidiano familiar não é algo tão simples assim. Por mais que seja uma decisão pensada, o lado emocional também pesa. A exigência de Tuya de permanecer próxima ao marido é uma forma de atenuar esta situação, mas por outro lado como justificá-la ao novo marido? Lidar com a vontade de ter alguém para ajudá-la no trabalho e a vontade de permanecer próxima à família, mesmo sabendo que ter ambos seja bastante complicado, é o grande conflito existente em Tuya e na própria história.

Um bom filme, apesar de certas cenas serem bem simplórias.

O Casamento de Tuya (Tuya De Hun Shi), de Wang Quan’an, China, 2006, 92′ (LEP)

Mostra Foco China

Nota: 7,0

Pérolas e Abacaxis

Três semanas (as sessões para imprensa começam um pouco antes) e 74 filmes depois, me despeço do Festival do Rio 2007. É claro que ainda está rolando a repescagem, mas, a essa altura, é preciso recuperar o corpo e arejar a mente. E ficar pelo menos duas semanas longe das salas escuras!

Fazendo uma retrospectiva dessa edição, reparo que foi um ano de muitos filmes bons e poucos realmente excepcionais. No mais, foi um ano tranqüilo. Com exceção de Inland Empire, do David Lynch, consegui ver todos os filmes que considerava imperdíveis. Me arrependi um pouco de não ter priorizado Paranoid Park e Piaf - Um Hino ao Amor, já que depois ouvi maravilhas sobre os dois filmes, mas faz parte do esquema do Festival. Você sempre vai perder alguma coisa imperdível… É preciso saber administrar isso.

Eis meu ranking de melhores e piores, dentre os filmes vistos:

10 +

1. Tropa de Elite
2. Sonhando Acordado
3. Lust, Caution
4. SOS Saúde
5. Sem Fôlego
6. I’m Not There
7. 4 meses, 3 semanas, 2 dias
8. Ainda Orangotangos
9. Amor e Outros Desastres
10. La Señal

10 -

1. Amor Fantasma
2. Eichmann
3. People - Histórias de Nova Iorque
4. Bunny Chow
5. Cem Pregos
6. Uma Velha Amante
7. Bluff
8. Shortbus
9. Garrafas Vazias
10. Goodbye Bafana

5 de out de 2007

Vá Logo e Volte Tarde

Jean-Baptiste é um conceituado policial que está diante de um caso inusitado: alguém está pintando nas portas de prédios de Paris um estranho símbolo, relacionado à época em que a peste negra dizimou grande parte da população européia. Além disto são enviadas mensagens através de um homem que lê cartas numa praça bem no centro da cidade, as quais alertam para o retorno da peste. Jean-Baptiste é conhecido por seu “sexto sentido” ao perseguir criminosos, mas está agora abalado devido ao fim de um relacionamento.

Filme de suspense banal, que segue à risca a fórmula do gênero: um criminoso engenhoso, cujo motivo é desconhecido e que dá bastante trabalho à polícia. A idéia de ligar os ataques à peste negra é boa, especialmente na repercussão que isto traz à população de Paris. Quando os ataques tornam-se públicos nasce um natural desespero, com os próprios habitantes pintando suas portas com o símbolo e passando a usar máscaras, por medo de contrair a peste. Algo não muito diferente do que pôde ser conferido em Nova York, pouco após os ataques terroristas de 11 de setembro. Porém a atitude das pessoas diante de notícias deste tipo, com a consequente auto-defesa que de alguma forma tentam ter, é mostrada apenas por alto. O foco da história não é este, e sim a perseguição de Jean-Baptiste ao assassino. Ou seja, o mesmo jogo de gato-e-rato da grande maioria dos suspenses policiais.

Ainda assim é um filme mediano, que peca em dois grandes pontos: o “sexto sentido” de Jean-Baptiste, que repentinamente indica o rumo correto da investigação; e a direção de Régis Wargnier, que dá boas pistas sobre quem é o assassino ao dar especial atenção, sem motivo aparente naquele instante, a determinados personagens.

Vá Logo e Volte Tarde (Pars Vite et Reviens Tard), de Régis Wargnier, França, 2007, 116′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 5,5

Meu Nome é Dindi

Dindi é a dona de uma quitanda tradicional, que está na família há três gerações. Ela enfrenta dificuldades devido à inauguração de um supermercado, que fez com que tenha uma grande dívida com o açougueiro. Simultaneamente surge em sua vida um estranho homem, que tenta entrar em contato com ela.

Nos anos 70 e 80, principalmente, o cinema brasileiro ficou conhecido por seus filmes autorais, feitos para um grupo reduzidíssimo de pessoas e sem qualquer preocupação em atender ao espectador comum. Foi nesta época - não apenas por este motivo, mas também por isto -, que nasceu no inconsciente coletivo a idéia de que “cinema nacional não presta”. Um preconceito que durou por muito tempo e que apenas reverteu, parcialmente, a partir da Retomada.

“Meu Nome é Dindi” lembra bastante os filmes desta época. É cinema pelo cinema, experimental, sem qualquer preocupação com mercado ou público. O que não é demérito, pois quando bem feito este tipo de filme pode ganhar tons simbólicos ou intrigantes que chamem a atenção. Mas também não é isto que acontece. Os simbolismos mostrados são rasos, gratuitos. A história é mal narrada, com personagens surgindo e desaparecendo repentinamente. A própria trama é frágil, já que o tema inicial, da dívida com o açougueiro, é abandonado sem grandes explicações. Aliás, explicação é o que menos há neste filme.

O desastre é tamanho que até mesmo Gustavo Falcão, bom ator, está canastrão em cena. Djin Sganzerla até se esforça mas é prejudicada pelo roteiro, que não permite que sua personagem se desenvolva. Isto fora a falta de cuidado com detalhes da própria caracterização dos personagens, como a vizinha que pede algo e, ao surgir em cena, parece que está posando para um álbum ou o cabelo do próprio Gustavo Falcão, incompatível para qualquer militar que tente aparentar alguma veracidade. Pode-se até dar um certo desconto pela rapidez com que o filme foi rodado, apenas uma semana, mas com tantas falhas talvez a melhor opção fosse trabalhar mais lentamente, de forma que o roteiro e o próprio filme pudessem ser melhor desenvolvidos.

Meu Nome é Dindi (idem), de Bruno Safadi, Brasil, 2007, 85′

Mostra Première Brasil - Novos Rumos

Nota: 1,0

As Rosas do Deserto

Durante a 2ª Guerra Mundial um batalhão médico italiano é enviado para o deserto da Líbia. Eles são designados para cuidar dos feridos mas têm pouco contato com a guerra, a qual sabem detalhes através de jornais e comentários. Com isso o comandante passa os dias escrevendo cartas de amor para sua esposa, enquanto que os demais integrantes buscam algo para ocupar o tempo.
Fica nítido que o diretor Mario Monicelli - atualmente com 92 anos - teve um orçamento apertado para dirigir este filme. Apesar do distanciamento da guerra ser requerido pela própria história, há momentos em que é possível perceber que determinadas situações não são mostradas devido a esta opção, mas pela impossibilidade da própria produção. Outro momento em que isto pode ser notado é nos veículos usados, cuja pintura aparenta ser bastante recente, sem que tenha sido feito um processo para desgastá-la. Estes pequenos detalhes fazem com que o filme perca bastante de sua veracidade.

Monicelli traz aqui um misto de comédia e drama envolvendo a guerra. Algo parecido com o que Roberto Benigni fez com A Vida é Bela, só que com bem menos impacto e qualidade. O filme chega a divertir em alguns momentos, principalmente pelo lado meio atabalhoado típico dos italianos e a rixa que aos poucos nasce com o exército alemão. Por outro lado há sempre a sombra da guerra que, apesar de pouco ser vista, influencia de forma decisiva. Bom filme, com destaque especial para o frade, que tem algumas das melhores tiradas da história.

As Rosas do Deserto (Le Rose del Deserto), de Mario Monicelli, Itália, 2006, 102′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 6,5

O Acompanhante

Carter Page III costuma acompanhar mulheres da elite de Washington em festas e recepções, sempre que seus maridos não podem comparecer. Carter não é uma ameaça a eles, já que é homossexual. Um dia ele leva uma de suas acompanhantes até à casa de um conhecido em comum. Lá ela o encontra morto, o que faz com que peça a Carter que a leve para casa e não diga que ela esteve no local do crime, pois isto criaria um escândalo para o marido, que é político. Carter atende ao pedido, mas logo ele próprio passa a ser suspeito de ter cometido o crime.

Bom filme, cuja história gira em torno do mundo de intrigas e fofocas da política. Pouco do que acontece é dito de forma direta, com as informações sendo transmitidas geralmente por terceiros. O filme peca pelo seu ritmo excessivamente lento, que cansa um pouco, apesar da história ser interessante. Destaque para a boa concepção de personagem de Woody Harrelson, que está bem em cena.

O Acompanhante (The Walker), de Paul Schrader, UK/EUA, 2007, 107′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 6,0

Cada Um Com Seu Cinema

Uma coletânea de curtas-metragens de 35 diretores de diversas partes do planeta, cada um deles com 3 minutos de duração e tendo o cinema como tema.

Filmes compostos por curtas costumam ser irregulares - exceção feita ao ótimo Paris, Te Amo. Este ainda tem o problema de que cada curta tem apenas 3 minutos, o que limita bastante a criatividade dos diretores. Com isso pode-se perceber que certos temas se repetem, como a presença de um cego vendo um filme, carícias na sala escura ou memórias afetivas ligadas ao cinema. A falta de tempo disponível fez com que os diretores muitas vezes optassem para o lugar comum em torno do cinema, ao invés de tentarem desenvolver ou criar algo diferente.

Entretanto as memórias afetivas são as que proporcionam os melhores momentos de "Cada Um Com Seu Cinema”, por serem mais fiéis ao espírito do filme proposto por Gilles Jacob, presidente do Festival de Cannes, que bancou o filme como forma de comemorar os 60 anos do evento. Todos temos nossas memórias ligadas ao cinema, o que nos aproxima ao ver algum dos diretores retratando este tipo de sentimento. O curta de Claude Lelouch, por exemplo, é primoroso neste sentido. Os de Nanni Moretti, falando sobre os ídolos e as diferentes formas de se ver cinema; de Abbas Kiarostami, retratando as reações do público a Romeu e Julieta; e de Youssef Chahine, apresentando uma situação de sua própria carreira dentro do Festival de Cannes, também seguem este estilo e estão entre os melhores.

Há ainda os curtas que conseguem ser criativos, desenvolvendo uma história em tão pouco tempo, como os de Roman Polanski, David Cronenberg e Lars von Trier. Todos também muito bons. Já os demais variam entre o mediano e o fraco, com destaque negativo para os diretores que resolveram ignorar o tema e rodar curtas sobre o que quisessem, sem nada ter a ver com cinema. Wim Wenders e Manoel de Oliveira estão nesta lista.

Cada Um Com Seu Cinema (Chacun Son Cinema), França, 2007, 119′ (LEP)

Mostra Cannes 60 Anos

Nota: 6,0

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