6 de mar de 2008

Fim da Linha


Estréia amanhã o criativo Fim da Linha, primeiro longa de Gustavo Steinberg, roteirista de Cronicamente Inviável. O filme não tem uma trama linear e sim um olhar crítico e bastante debochado sobre um punhado de personagens cujos caminhos se entrecruzam em algum momento da história. O tema condutor é a ambição desenfreada e a teoria de que as pessoas perdem qualquer fiapo de racionalidade quando o que está em jogo é ganhar dinheiro. Ou se apropriar do dinheiro alheio, mesmo que nem saibam o que fazer com ele.

Os ótimos tipos desenvolvidos por Steinberg são o grande atrativo da história. Entre eles temos: um documentarista cheio de idealismo, mas que não se importa de ser sustentado pela mulher; uma tribo indígena que quer transformar sua dança da chuva em produto comercial; uma perua dona de boutique que faz as amigas se endividarem em sua loja; um deputado que tem um armário cheio de dinheiro e alega ter sido sorteado na loteria 1.313 vezes, mas não dispensa a oportunidade de ganhar uma aposta; um catador de lixo que cata tudo que encontra pela frente, até seres humanos... e por aí vai.

Todos esses personagens – e mais alguns – ao longo do filme desconstróem a primeira impressão que temos deles, o que acontece tão logo o dinheiro ou possibilidade de ganhá-lo se apresenta. Somente o deputado Ernesto Alves (última aparição do recém-falecido Rubens de Falco), com seu cinismo político, se mantém o mesmo escroque do primeiro ao último fotograma. O que o torna, no final das contas, o personagem mais sincero de todos.

O bem-humorado roteiro tem diálogos deliciosos, com destaque para a cena em que o jornalista vivido por Leonardo Medeiros discute com o pajé sobre a viabilidade de cobrar por um produto que ninguém quer comprar. Também são extremamente divertidas todas as discussões ocorridas dentro da van, assim como o embate entre a mendiga e o catador de lixo. Claro que o filme apresenta algumas situações absurdas, mas até mesmo esses momentos de nonsense têm um sentido dentro da proposta do longa, que se utiliza desse exagero para fazer uma alegoria sobre o quanto a ambição faz as pessoas pirarem.

Fim da Linha é uma produção que chama a atenção pela criatividade, simplicidade e bom humor e que merece ser vista. Mas o espectador tem que correr, já que o longa estréia com circuito limitadíssimo: quatro cópias, sendo três em São Paulo e apenas uma aqui no Rio de Janeiro (o filme entrará em cartaz somente no Estação Gávea).

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