9 de jan de 2008

O Suspeito


Herói, belo épico de artes marciais de Zhang Yimou, tem em sua abertura a seguinte afirmação: “Em qualquer guerra, há heróis nos dois lados”. Um pensamento reconfortante. Mas, como tudo no universo costuma ter seu oposto, também é verdadeiro o outro lado dessa mesma idéia, ou seja, de que os vilões também estão dos dois lados, mesmo quando um deles parece, a grosso modo, ser o “certo”. O Suspeito (novo filme do sul-africano Gavin Hood, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro por Tsotsi) é um filme que exemplifica tal filosofia com brutal realismo.

Anwar El-Ibrahimi é um típico e pacato cidadão americano: apesar de egípcio de nascimento, imigrou aos 14 anos, estudou em universidade americana, possui green card, é casado com uma americana, tem dois filhos, mora numa bela casa com gramado e tem um bom e bem-remunerado emprego como engenheiro químico. Anwar é uma prova viva de que o imigrante pode dar certo na terra do Tio Sam. Até o dia em que, durante uma viagem de negócios à Africa, acontece um atentato cuja autoria é assumida por um grupo extremista egípcio. Um dos mortos é um agente da CIA e o fato, associado a alguns indícios pouco claros, fazem com que Anwar seja arrancado de seu vôo durante uma conexão e desapareça misteriosamente.

A questão central de O Suspeito não está na culpa ou inocência de Anwar e sim no absurdo da CIA poder simplesmente sumir com uma pessoa sem dar satisfações a ninguém. Como agravante, ainda há o fato de Anwar ser um mero suspeito. Está certo que o ocorrido não era pura paranóia, existiam alguns indícios contra ele - todos circunstanciais -, mas, ainda assim, existe uma coisa chamada direitos humanos, algo do qual o governo dos Estados Unidos adora se declarar cumpridor. E não nos esqueçamos de que se tratava de um residente, com toda sua vida sedimentada no país há mais de vinte anos, enfim, alguém que era mais americano do que propriamente egípcio.

O filme aborda o assunto de modo bastante inteligente, alternando o calvário de Anwar com a busca desesperada de sua esposa por notícias e também dando espaço a subtramas que enriquecem o panorama geral, como o conflito na família do oficial egípcio e as crises pessoais do agente vivido por Jake Gyllenhaal. Aliás, seu personagem atormentado e com ares bogartianos é uma das melhores coisas do filme. E ter um ator talentoso como Gyllenhaal interpretando-o só valoriza o filme.

O elenco é perfeito, com destaque especial para a participação de Meryl Streep como a toda-poderosa da CIA que ordena a extradição secreta de Anwar. A veemência e fanatismo de sua personagem - que realmente acredita estar fazendo a coisa certa - é assustadora, principalmente por isso ser mostrado com tanta verdade pela atriz. Ótima a discussão dela com o assessor de senador interpretado pelo também eficiente Peter Sarsgaard. Sua argumentação é a de que é preferível ser injusta com um indivíduo do que colocar a nação em risco e seu discurso é, em essência, bem parecido com o dos terroristas mostrados no filme. Não se pode deixar de notar também que este personagem de Meryl é o inverso do que ela interpretou em Leões e Cordeiros.

O filme é baseado em uma história real e, em vários aspectos, dialoga com Caminho para Guantánamo, de Michael Winterbottom. Existe, de fato, uma lei denominada Extreme Rendition, que permite que um suspeito de terrorismo seja retirado do território americano e levado para uma prisão secreta no exterior, onde ele pode ser interrogado por autoridades norte-americanas. Interrogado, é claro, não passa de um eufemismo para tortura ininterrupta. E as cenas que mostram isso assustam pela crueldade. E, diga-se de passagem, qualquer semelhança com a nossa ditadura militar não é mera coincidência. Acho sempre educativo quando um filme mostra a tortura como ela realmente é, já que talvez essa seja a única forma de conscientizar os cidadãos de que não existe nenhum tipo de justificativa para que ela ocorra.

O Suspeito estréia na próxima sexta, 11 de janeiro.

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