5 de out. de 2007

5 Frações de uma Quase História

Cinco histórias acontecem simultaneamente: um fotógrafo fascinado por pés busca uma modelo que aceite posar para ele; um homem busca fugir de sua vida; um funcionário público recebe uma proposta de um juiz corrupto; um homem descobre a traição de sua esposa; e uma mulher combina um encontro às cegas num parque, com alguém que conheceu através de um programa de rádio.

“5 Frações de uma Quase História” poderia ser desmembrado em cinco curtas-metragens sem grande dificuldade. Porém a interligação existente é tão bem feita, tão convincente, que agrada, mesmo que todas as histórias sejam independentes em relação às demais.

Em todas as histórias é possível perceber um capricho na produção, especialmente na fotografia e na edição. A melhor delas é a última, também a mais divertida, estrelada por Cynthia Falabella. Leonardo Medeiros dá o tom certo na história de abertura, interpretando um homem que não consegue se conter a cada vez que vê um pé feminino. A história do marido traído é bem feita, apesar de não ser nem um pouco original. E a que destoa do filme é a 2ª, bem cansativa.

No todo trata-se de um bom filme, com histórias interessantes e uma interligação que acaba dando um charme a mais.

5 Frações de uma Quase História (idem), de Armando Mendz, Cris Azzi, Cristiano Abud, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia, Brasil, 2007, 95′

Mostra Première Brasil - Novos Rumos

Nota: 6,5

O Outro

Juan Desouza vive sufocado entre o trabalho burocrático e suas obrigações como chefe de família. Durante uma viagem de negócios, descobre que o homem sentado ao seu lado no ônibus está morto. O fato desencadeia em Juan uma súbita sede de liberdade e ele decide passar mais alguns dias fora de casa. Juan inventa novas identidades e profissões, explorando a experiência de ser outras pessoas. Grande Prêmio do Júri e Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim 2007.

A estrutura do filme é bem interessante: um homem chega a seu limite e resolve viver outras vidas. Juan não quer mais saber da esposa, do pai doente, do trabalho cansativo. Ele quer ser outra pessoa. A partir dessa boa premissa, o longa, infelizmente, se desenvolve de forma canhestra. O ritmo é lento, como se o diretor não soubesse o que fazer com o personagem quando ele se liberta. Juan não realiza muita coisa digna de nota em suas outras vidas. Pelo contrário, se contenta em ficar sozinho em quartos de hotéis, jantar fora, andar pelas ruas, enfim, um retrato de uma vida cotidiana. Que pode ser extremamente libertadora para o personagem, que finalmente tem algum tempo só para si, mas que não é lá muito atraente para o espectador.

Como ponto alto do longa, destaca-se o excelente trabalho de Julio Chávez como Juan. Não foi por acaso que o ator foi premiado no Festival de Berlim deste ano. É impagável a cena em que Juan, fingindo ser médico, é obrigado a socorrer uma velhinha surtada. Só essa cena já compensa ver o filme.

O Outro (El Otro), de Ariel Rotter, Arg/Fra/Ale, 2007. 83’ (LEP)

Première Latina

Nota: 6,0

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Andy, um executivo afundado em problemas financeiros, convence Hank, seu problemático irmão caçula, a participar de um assalto à pequena joalheria da família. O argumento de Andy é que ninguém sairá prejudicado, já que os pais têm seguro. Além do mais, eles conhecem como ninguém a rotina do local. Mas nada sai como planejado e os irmãos têm que lidar com os trágicos desdobramentos de seu infeliz plano.

Depois do sofrível Find me Guilty, exibido no Festival do ano passado, confesso que estava com um pé atrás com Sidney Lumet. Qualquer diretor que se disponha a trabalhar com Vin Diesel inspira minha eterna desconfiança. A boa notícia é que Lumet aprendeu a lição e, para compensar a bola fora, escalou desta vez um time invejável: Philip Seymour Hoffman, Albert Finney, Ethan Hawke. Os dois primeiros dispensam introduções, o terceiro tem se desenvolvido espantosamente nos últimos anos. De quebra, a geralmente subaproveitada Marisa Tomei em cenas que farão a alegria dos marmanjos.

A história também remete ao Lumet de outros tempos: num ritmo claustrofóbico, o roteiro caminha para uma inevitável colisão de vontades. Os personagens ficam a cada instante mais acuados e, portanto, mais propensos a meter os pés pelas mãos. Nesses casos, o desastre é certo. A trama é um trágico exemplo da verdade contida em frases como “cada ação gera uma reação”. A maioria dos planos perfeitos são perfeitos apenas em teoria, porque em tese não se lida com o imprevisto. E é geralmente o fator-surpresa que bagunça tudo. Lição que os personagens aprendem da maneira mais dolorosa.

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (Before the Devil Knows You’re Dead), de Sidney Lumet, EUA, 2007. 117’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 7,5

Ficha no Adoro Cinema

4 de out. de 2007

Paranoid Park

Alex é um jovem de 16 anos, que namora Jennifer e tem Jared como seu melhor amigo. Um dia ele e Jared vão a Paranoid Park, o paraíso dos skatistas. Eles combinam de voltar ao local no sábado à noite mas, de última hora, Jared precisa viajar. Alex decide ir ao local sozinho e lá conhece outros skatistas. Ele aceita o convite de um deles para subir em um trem de carga, sem imaginar o problema que teria.

“Estou fazendo a maior bagunça. Mas fique tranquilo, pois irei contar tudo.”

Esta é a frase que melhor define Paranoid Park. Trata-se de um grande quebra-cabeças, montado aos poucos e com sutileza pelo diretor Gus Van Sant. Os eventos ocorridos com Alex são mostrados de forma não-linear, sendo que a frase acima é dita pelo próprio personagem em determinado momento. Trata-se de um aviso ao espectador, para que saiba o que está por vir.

Paranoid Park foge um pouco do estilo dos últimos dois trabalhos de Gus Van Sant, Elefante e Últimos Dias. O ritmo continua lento, mas não tanto quanto nestes filmes. Há cenas que lembram bastante Elefante, especialmente quando a câmera acompanha Alex andando pelos corredores de sua escola. Entretanto o formato deste é inteiramente diferente: enquanto nos anteriores Van Sant buscava mostrar um painel sobre o que acontecia simultaneamente com vários personagens, aqui é um fato ocorrido com um único personagem, com seu passado, presente e futuro mostrados fora de ordem. Isto o torna um filme intrigante, pois aos poucos são revelados pequenos detalhes que esclarecem o porquê de uma cena anterior ter sido daquela forma ou a atitude de algum personagem. É, como disse antes, um grande quebra-cabeças.

Porém Paranoid Park sofre de um problema crônico do cinema americano: a necessidade de deixar tudo bem explicadinho, todos os pingos nos is. Nem toda história necessita de tantas informações sobre o destino de seus personagens, muitas vezes deixar dúvidas no ar é mais interessante para o filme como um todo e também para o próprio espectador, que pode discutir seus possíveis finais ao término da sessão. As duas últimas cenas têm por função apenas seguir este cacoete do cinema hollywoodiano. Não incomodam, mas são desnecessárias. Ainda assim trata-se de um filme muito bom, o melhor que Van Sant fez desde Gênio Indomável.

Paranoid Park (idem), de Gus Van Sant, EUA, 2007, 90′ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 8,5

O Amor no Tempo do Cólera

O filme narra a saga de Florentino Ariza, que dedica sua vida inteira a obter o amor da inalcançável Fermina Daza. Entretanto, sua obstinação em conquistar a amada não impede que ele a busque em todas as outras mulheres do mundo. Adaptação do romance (quase) homônimo de Gabriel García Márquez.

Adaptações são sempre problemáticas, ainda mais quando se trata de um romance tão consagrado como este. E justiça seja feita: Mike Newell realizou uma transposição competente, mantendo-se bastante fiel ao espírito do livro. O roteiro é bem estruturado e só peca por soar um pouco literário demais em algumas falas, mas nada que comprometa seriamente o trabalho geral. O elenco também é bom, com destaque para o intenso Javier Bardem – e sua incrível capacidade de conferir veracidade a qualquer personagem - e nossa diva Fernanda Montenegro como sua mãe. A direção de arte e os figurinos são primorosos, e retratam com requinte um período que engloba o final do século XIX e o começo do século XX. A maquiagem e o processo de envelhecimento dos personagens também são bons, com algumas exceções. Ainda assim, na telona, O Amor no Tempo do Cólera não possui a mesma força dramática da obra original. Por quê? Difícil explicar, já que a produção é bastante cuidadosa e não apresenta nenhuma grande falha. Talvez algumas coisas simplesmente fiquem melhor no papel do que na tela. Pode ser que a explicação seja simples assim.

O Amor no Tempo do Cólera (Love in the Time of Cholera), de Mike Newell, UK, 2007. 138’ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 6,5

Film Noir

Um homem acorda, no meio da noite, debaixo do letreiro de Hollywood. Não sabe quem é nem porque está ali. A seu lado, um policial morto. Durante sua fuga do local, recebe um estranho telefonema de alguém que procura por Sam Ruben e diz que o serviço está feito. Mas logo surgem indícios de que ele seria um traficante chamado Dave Hudson. Nesse caso, o que estaria fazendo com o celular de Sam Ruben? Cada vez mais confuso, nosso herói só sabe de uma coisa: alguém está no seu encalço.

Animação interessante, nos moldes do film noir clássico. Pena que não consiga segurar o interesse do espectador até o final. Após a excelente meia hora inicial, o roteiro se torna cansativo e com excesso de reviravoltas e trocas de identidade. O que não seria grave, caso não tivesse faltado o fator essencial de qualquer film noir, ou seja, diálogos mais inteligentes e sarcásticos. No final das contas, o filme acaba se prendendo mais à forma e deixando o conteúdo em segundo plano.

A animação propriamente dita, claramente inspirada no visual de Sin City, tampouco é inovadora. É preciso lembrar que Sin City era tão impressionante justamente por levar para as telas a estética da graphic novel com atores de carne-e-osso. Esse mesmo visual feito em animação… Bom, é mais do mesmo.

Film Noir (idem), de D. Jud Jones e Risto Topaloski, EUA, 2007. 97’ (LEP)

Mostra Midnight Movies

Nota: 6,0

Delirious

Les Galantine é um paparazzi de segunda categoria. Uma noite, acolhe em seu apartamento o sem-teto Toby. Les o emprega como seu assistente e, embora não pague ao rapaz um salário, lhe dá casa e comida. Toby sonha ser ator e, num incrível lance de sorte, se aproxima da estrela pop Kharma. É quando começam os conflitos entre Toby e Les e as cobranças deste, que se sente usado. Prêmio de direção e roteiro no Festival de San Sebastian 2006.

O Festival de San Sebastian precisa rever urgentemente seus parâmetros, porque é assustador que um filme como esse tenha faturado dois prêmios importantes. Delirious até começa bem, enfocando o modo inusitado como começa a amizade entre Les e Toby e a rapidez espantosa com que eles passam de conhecidos a companheiros inseparáveis, justamente por serem ambos dois rejeitados. Parecia que vinha pela frente uma história sensível e realista. Inexplicavelmente, em sua segunda metade o longa começa a atirar para todas as direções. Bastidores das celebridades, romance água com açúcar, desvios para uma obsessão criminosa e até mesmo insinuações enrustidas de homossexualismo. Nada contra explorar nenhum desses temas, mas o problema é que nada disso é abordado de fato. O filme ameaça, ameaça… e não cumpre nada. Salvam-se algumas (poucas) tiradas cômicas, especialmente nas falas do personagem de Steve Buscemi. Ele e Michael Pitt são bons atores, mas não fazem milagre.

Delirious (idem), de Tom Dicillo, EUA, 2006. 107’ (LP)

Mostra Panorama

Nota: 3,5

Ficha no Adoro Cinema

Jogo de Cena

Em 2006, a equipe do cineasta Eduardo Coutinho colocou um anúncio num jornal, procurando por mulheres que tivessem histórias para contar e se dispusessem a participar de um teste para cinema. Oitenta e três entrevistas foram realizadas, das quais vinte e três foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Posteriormente, atrizes foram chamadas para dar sua interpretação às histórias contadas pelas entrevistadas.

Jogo de Cena tem um dos melhores títulos já dados a um filme, porque é exatamente a isso que se propõe: criar um jogo de interpretação onde a fronteira entre realidade e atuação muitas vezes não é perceptível. Não é ficção nem documentário e sim um híbrido dos dois. Alguns relatos são intercalados entre entrevistada e atriz, em outros não fica claro a princípio quem está em cena. Grande destaque para a cena da mulher que conta sua experiência com o despachante rodoviário na Praça da Sé. Excelente. Algumas coisas ditas pelas atrizes parecem ser experiências pessoais, como a ida de Fernanda Torres ao terreiro de Candomblé e a saudade de Andréa Beltrão de sua antiga babá. Será? Foi um comentário da atriz ou ela estava interpretando algum relato?

Então esse jogo acaba envolvendo também o espectador e aguçando sua curiosidade. Aquilo é realidade encenada ou interpretação? E quando alguém conta um fato - mesmo sendo verdadeiro - diante de uma câmera, essa pessoa não estaria, de certa forma, interpretando? São estas questões conceituais e filosóficas que elevam para outro patamar um filme que, a princípio, parece menos atraente do que os outros longas de Coutinho.

Jogo de Cena é um pouco prejudicado pelo fato de algumas das histórias relatadas não serem muito interessantes. Eduardo Coutinho é um exímio entrevistador e tem um jeito amável e descontraído de deixar seu convidado à vontade, o que faz com que ele sempre extraia o melhor de cada um. Mas, ainda assim, os relatos estão longe de ter a pungência dos mostrados em Edifício Master, só para citar um exemplo de outro filme de Coutinho. E isso causa um certo estranhamento, já que originalmente eram oitenta e três histórias que foram reduzidas a vinte e três. Qual terá sido o critério adotado? Ou será que o relato em si não importava e o foco era selecionar as passagens que representassem, de algum modo, maior desafio às atrizes?

Um dos grandes momentos do filme mostra Fernanda Torres “saindo” do personagem para falar sobre sua dificuldade em interpretar uma pessoa real. Muito sincera e avessa a estrelismos, a atriz fala sem rodeios ou pudores sobre seus próprios bloqueios. É em momentos como este que o filme cresce em densidade e entendemos porque Fernanda é uma grande atriz.

No geral, Jogo de Cena é um bom filme. E suas maiores qualidades vêm do que não é visto, ou seja, do conceito, do que não está em cena.

Jogo de Cena (idem), de Eduardo Coutinho, Brasil, 2006. 103’

Première Brasil / Hors-Concours

Nota : 7,5

2 de out. de 2007

Ópera do Mallandro

Um garoto chega para o último dia da recuperação. Para passar de ano ele precisa escrever uma redação em apenas 15 minutos, sendo que o critério de avaliação mais importante é sua criatividade. Pensando no que escrever, ele começa a imaginar situações envolvendo músicas conhecidas de Sérgio Mallandro.

Genial! Um curta divertidíssimo, assumidamente trash e cheio de referências aos anos 80. “Ópera do Mallandro” assume o espírito das músicas de Sérgio Mallandro e as utiliza nas situações mais impensáveis, envolvendo ícones como Michael Jackson, Flashdance, Ozzy Osbourne, Fofão, Bozo e tantos outros. O clima em cena é o de descontração total, de escracho mesmo, e não poderia ser diferente com o material que serviu de influência. O grande mérito do filme é ser fiel a este espírito.

Para quem viveu a infância ou adolescência nos anos 80 é imperdível. Mas é preciso entrar no clima, sem levá-lo a sério em momento algum. Aliás, levar qualquer coisa a sério é a última das intenções deste delicioso curta-metragem.

Ópera do Mallandro (idem), de André Moraes, Brasil, 2007, 16′

Mostra Première Brasil - Curtas - Hors Concours

Nota: 10

O Escafandro e a Borboleta

Versão para o cinema da autobiografia de Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle que, aos 43 anos, sofre um acidente vascular e tem que reaprender a se comunicar usando apenas o movimento dos olhos. Bauby aprende a formar frases com uma técnica que consiste em ouvir alguém recitar as letras do alfabeto e piscar cada vez que ouve a letra correspondente. Assim começa sua resistência, culminando com a autoria do livro que inspirou o longa. Prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes 2007.

O filme tem alguns pontos positivos, sendo o mais louvável deles o fato de seus realizadores terem resistido à tentação de transformar o drama de Bauby num novelão mexicano. O filme, pelo contrário, é bastante contido e realista. Em contrapartida, a trama acompanha com tanto distanciamento o longo processo de reaprendizagem do protagonista que acaba pecando pelo excesso de, digamos, assepsia. Em diversas passagens, a história ganha um ar excessivamente documental. E a colunista aqui, particularmente, achou o filme bastante chato. Boa história, mas filmada de uma maneira monótona.

Uma curiosidade: antes de Mathieu Amalric ser contratado para interpretar Bauby, os produtores convidaram Johnny Depp, que não pôde aceitar por ainda estar comprometido com as filmagens de Piratas do Caribe 3. Pena. Com Depp, o filme poderia ter alcançado outro patamar.

O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon), de Julian Schnabel, França, 2007. 112’ (LEP)

Mostra Panorama

Nota: 4,5

Corpo

Na cidade de São Paulo, uma enorme ossada é descoberta e levada ao IML. Desconfia-se que os esqueletos pertençam a pessoas desaparecidas durante a ditadura militar. Junto aos ossos, também é encontrado um cadáver de mulher ainda não decomposto. O legista Artur fica obcecado em descobrir a identidade da moça e desenvolve uma estranha teoria de que aquele corpo foi enterrado junto com os outros e, por algum motivo, se preservou por mais de trinta anos.

Outro dia mesmo comentei aqui que boas idéias nem sempre se transformam em bons filmes. Volto a falar no assunto para tentar entender o porquê de um argumento tão interessante ter resultado num filme tão problemático. O necrotério é um cenário criativo, o legista é um excelente personagem e a idéia do corpo sem identidade gera inúmeras possibilidades. Então o que desandou? Certamente o ponto crítico de Corpo é seu roteiro: além dos diálogos não serem bons, a estrutura também é meio esquisita. Por que aquele corpo teria se preservado? Milagre? Ou tudo não passa de uma metáfora do tipo “um dia a verdade vem à tona”? Esse é apenas um exemplo das pontas soltas da história. Também existem cenas aleatórias, que não apenas nada acrescentam à história como também colocam novas dúvidas na cabeça do espectador. O curioso é que percebe-se que o roteiro tenta trabalhar com alguns elementos clássicos do cinema noir, como o homem maduro desiludido, a jovem cheia de mistérios que muda sua rotina, um crime a ser desvendado, etc. Mas apenas colocar os ingredientes na batedeira não faz um bolo.

Leonardo Medeiros, um dos melhores atores brasileiros da atualidade, é o único responsável por manter o espectador conectado com a confusa história. Vê-lo em cena é sempre bom. Ao mesmo tempo, é decepcionante, já que quem acompanha a carreira do ator sabe que ele costuma ser bem seletivo em suas escolhas de papéis.

Corpo (idem), de Rossana Foglia e Rubens Rewald, Brasil, 2007. 86’

Mostra Première Brasil - Novos Rumos

Nota: 3,0

O Banheiro do Papa

O ano é 1988 e a pequena cidade de Melo, na fronteira do Uruguai com o Brasil, vive a euforia de estar prestes receber a visita do Papa João Paulo II. São esperados milhares de devotos, o que significa uma rara oportunidade de bons negócios. Enquanto os demais moradores pensam em vender sanduíches, bebidas e artigos religiosos, Beto tem uma idéia mais original: construir um banheiro na frente de sua casa para que os peregrinos possam, por alguns trocados, se aliviar. Exibido na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes 2007.

O filme parte de um argumento criativo e até tem algumas boas sacadas. Faltou apenas acreditar na própria proposta, já que o humor e as boas idéias vão decaindo ao longo da projeção. Isso faz com que a segunda metade do longa seja inferior à primeira. Indeciso entre fazer um painel social dos pequenos contrabandistas de fronteira ou explorar a graça da bizarra noção de Beto para os negócios, O Banheiro do Papa não se define por uma coisa nem outra. Acaba ficando como seu protagonista: na fronteira. Também incomoda uma seqüência perto do desfecho que parece inserida no filme tão-somente para ressaltar a competência do diretor de fotografia: todas as imagens têm uma estética de exposição fotográfica que não combina com o restante do longa.

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa), de Enrique Fernandez e Cesar Charlone, Uru/Bra, 2007. 97’ (LEP)

Première Latina

Nota: 5,5

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